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Desconfiômetro

"Não há nada que melhor defina uma pessoa do que aquilo
que ela faz quando tem toda a liberdade de escolha."
William M. Bulger.

Nasci e fui criada na grande São Paulo. E foi lá que aprendi a dirigir automóvel – treinando num jeep verde, ano 72, do meu pai.

Depois passei a conduzir um fusca vermelho. Esse era do meu cunhado.

Nunca mais esqueci do dia em que consegui leva-lo de Santo Amaro até o centro da cidade. Para ser bem sincera, nem sei quem era o mais maluco alí – se eu ou ele – pois naquela época eu contava apenas 16 anos de idade.

O bom é que chegamos inteiros e, de quebra, ganhei muita experiência.

Difícil deve ter sido para quem cruzou o meu caminho...

Hoje recordo aquelas aventuras e, de certa forma, são elas que me acalmam, quando estou transitando nas ruas da cidade.

Tento desculpar o outro, pensando que poderia ser eu.

No início a tarefa é hercúlea, mas depois que vira hábito a gente passa a rir das barbeiragens dos outros. Isso porque barbeiragens são, na maioria das vezes, ações não intencionais por parte dos motoristas.

Quem nunca pegou à frente, numa pista única, sem visibilidade, um velhinho usando chapéu? Esses são os mais cuidadosos. Tão cuidadosos que nem andam. No máximo 40 km/h. E aí, quando estamos com aquele compromisso para acontecer dali a 5 minutos, e a distância até ele é de 20 kilômetros, não precisamos ser aptos aos cálculos da física newtoniana para percebermos que nem com reza brava conseguiremos chegar a tempo. É preciso muita paciência e disciplina mental.

Porém o problema maior não é estar numa situação destas. Mesmo porque a idade avançada já é motivo para perdão incondicional ao outro condutor e o mais correto seria sairmos mais cedo, evitando assim o desconforto do atraso.

Ruim mesmo é dar de cara com alguém que estaciona na vaga destinada aos deficientes físicos.

Isso, para mim, é aberração.

Vez ou outra me deparo com pessoas que fazem isso.

Uma total falta de respeito para com aquele que já enfrenta outras tantas dificuldades para se deslocar e conviver em sociedade.

A criatura que faz uma coisa destas não se deu conta dos problemas que rondam a vida de um cadeirante. Só pode ser isso.

Richard Simonetti, escritor e articulista, costuma comentar que pessoas assim nasceram com o desconfiômetro desligado.

E pelo visto não receberam dos pais as informações necessárias, contendo as básicas regras de convívio e cidadania, mantendo, assim, o tal desconfiômetro no mesmo estado.

Alguns, quando questionados sobre tal atitude, respondem que a sua necessidade era muita e que por este motivo estacionaram ali.

Não conseguem ver nada além do próprio umbigo.

Lamentavelmente, não se trata de um problema isolado, mas de uma tendência geral.

Um número grande de pessoas age desta maneira, no Brasil.

Certo conhecido meu, o Alberto, fazendo uma palestra pela ONG onde participa, falou sobre como é a sua rotina diária. Só de ele contar, senti um enorme cansaço. Para um cadeirante, uma simples ida ao shopping é uma verdadeira maratona, que, além de cansar o físico, muitas vezes dilacera a alma.

Isso porque, além de precisarem do dobro de tempo que uma pessoa normal usa para este propósito - fazendo uma força enorme para sair da cama, vestindo-se, deslocando-se para o banco do carro -  ainda enfrentam os olhares cheios de pena das pessoas que cruzam seu caminho, que são como agulhas invisíveis relembrando a todo instante aquilo que, muitas vezes, desejam esquecer.

Agora imagine, por um instante apenas, que você se encontra no lugar dele e que, chegando ao estacionamento do supermercado, encontrou a única vaga que poderia lhe atender preenchida com o carro de um bípede erectus ignorantis. Certamente a sua primeira vontade seria  falar bem mal do espertalhão, ou, quem sabe, da mãe dele. A segunda, muito provavelmente, de se mudar para a Suécia.

Por que eu cito a Suécia?

Acontece que rodou pela internet um texto muito interessante, atribuído a um brasileiro que foi residir e trabalhar naquele país.

Conta-nos o rapaz que o fato mais impressionante que lhe aconteceu, logo que chegou nas terras da escandinavia, envolvia justamente a questão da boa educação nos estacionamentos.

Ao ser levado por um colega de trabalho até a empresa onde ia começar suas atividades (empresa com cerca de 2000 funcionários), constatou que o condutor estacionou o carro muito distante da porta de entrada, apesar das tantas vagas vazias existentes - todas bem mais próximas. Nos primeiro e segundo dias ele não teve coragem de perguntar o porquê daquela atitude que se repetia. No terceiro encheu o peito de coragem e lançou a pergunta: 'Você tem lugar demarcado para estacionar aqui? Notei que chegamos cedo, o estacionamento vazio e você deixa o carro lá no final. ' E o colega respondeu simples assim: 'É que chegamos cedo, então temos tempo de caminhar - quem chegar mais tarde já vai estar atrasado, melhor que fique mais perto da porta. Você não acha? '

Imagine a cara do brasileiro.

Deve ter ficado pasmo com aquela lição inesperada.

Confesso que eu também fiquei.

Pelo visto os suecos já ligaram o tal desconfiômetro.

Mesmo que não tenha ninguém para lhes cobrar as atitudes corretas, a consciência daquelas pessoas – totalmente desperta – são como bússolas precisas, indicando-lhes o norte das melhores atitudes.

Claudia Gelernter
Enviado por Claudia Gelernter em 16/09/2007
Código do texto: T654569
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Sobre a autora
Claudia Gelernter
Vinhedo - São Paulo - Brasil, 48 anos
37 textos (18866 leituras)
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Claudia Gelernter