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Escutatória

"A arte de ouvir é, também, a ciência de ajudar."
Joanna de Ângelis


Dona Zuleika era a dona da cantina da escola onde fiz meu primeiro grau. Todas as manhãs ela preparava o mais cheiroso sanduiche de mortadela quente da região.  E eu, com minhas poucas moedas, ficava sempre indecisa entre o lanche com pão francês ou drops da marca ‘banda’ sabor morango.

Não foram poucas as vezes em que saía de lá triste por ter sempre de optar entre as duas coisas mais importantes para mim, até aquele momento: a comida que matava a fome ou o doce que me enchia de alegria.

Ainda lembro de uma manhã quente, bem no início do mês de novembro  (época em que as provas estão vindo às pencas e a gente nem sabe se lê primeiro sobre história do Brasil ou se resolve problemas de matemática) em que Dona Zuleika não teve pressa. Ela que sempre estava aflita em saber o pedido dos alunos, em entregar o troco e passar para o próximo; naquela manhã estava diferente. Olhou para mim e arriscou perguntar porque eu sempre escolhia entre o lanche e as balas, sem nunca levar a ambos.

O mundo a minha volta parou. Ninguém, até alí, tinha se preocupado se eu tinha vontade de ambas as coisas, de uma só vez. Nem a minha melhor amiga de classe – a Claudinha. Mas Dona Zuleika quis saber. E seus olhos opacos, denunciando a idade avançada, me olharam bem no fundo. Foi a primeira vez que reparei realmente naquela senhora. Ela poderia ser minha avó, e ainda assim estava sempre lá, trabalhando, correndo com os lanches e ouvindo os gritos dos moleques mal educados.

Me vieram poucas palavras, então apenas disse: “Não tenho como pagar os dois”.

A bondosa senhora saiu de trás do balcão, abriu a pequena portinha ao lado da parede descascada e veio ao meu encontro.

“Vamos conversar”, falou.

Mas não teve conversa. Apenas eu falei. E ela escutou, calada.

Contei das dificuldades do meu pai desempregado e da minha mãe costureira de bairro. Falei no número grande de irmãos e sobrinhos que moravam comigo e de quanto era sofrido para conseguirem manter a casa, o alimento e todos os gastos...

Mas acho que ela nunca soube que na verdade aquilo tudo que eu contava não me doía. Não sentia pena de mim porque morava em casa simples ou porque a única sandália que eu tinha para ir à escola era remendada com linhas de soltar pipa. Não. Eu só não gostava era do fato de que minha mãe não conseguia me dar alguns centavos a mais para a tão sonhada bala da cantina da Dona Zuleika.

Depois que falei da minha dificuldade, fiquei esperando uma resposta dela. Não veio nada. Ela só passou a mão no meu cabelo e ficou me olhando, com os olhos lúcidos.

Passaram-se uns instantes, Dona Zuleika se levantou, abanou uma das mãos me chamando para acompanhá-la, e entrou novamente pela mesma portinha, ao lado da tal parede.

Pegou dois drops, com  sabores diferentes e me entregou. Depois, quase no momento em que eu já estava me virando para ir embora, a serena mulher falou que todas as manhãs eu poderia pegar um lanche de mortadela quente, sem pagar nada por isso.

Mas não cheguei a pegar nenhum alimento sem pagar.

Logo depois daquele episódio algo deve ter acontecido em casa, porque as moedas vieram em maior quantidade.

Dona Zuleika também nunca me perguntou porque eu não aceitei a oferta dos lanches.

Só depois de muitos anos descobri que, na verdade, aquela senhora era uma especialista na arte de ouvir.

Vez ou outra via a mesma situação acontecendo:  ela saindo da pequena cantina, sentando com alguma criança no banco de madeira, em frente ao grande páteo. E era sempre a mesma coisa – a criança falava e ela ouvia. Então ambos seguiam para a lanchonete e ela entregava algo nas pequenas mãos ansiosas....

As pessoas não costumavam ouvir as crianças. Ou ainda pouco ouvem...

Mas ela era diferente.

Hoje pela manhã lí um belíssimo texto de Rubem Alves que me fez recordar de dona Zuleika. Eis um pequeno trecho: “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular”.

Realmente.

Duvido que alguém se matricule neste curso. Escutar o outro exige algo que vai muito além da técnica – exige desprendimento.

E Dona Zuleika tinha isso. Ela tinha o dom da escutatória. Foi por este motivo que nunca mais a esqueci.

Claudia Gelernter
Enviado por Claudia Gelernter em 16/09/2007
Código do texto: T654690
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Sobre a autora
Claudia Gelernter
Vinhedo - São Paulo - Brasil, 48 anos
37 textos (18824 leituras)
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Claudia Gelernter