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Amarelaram os verdejantes tempos!

 

Rosa Pena

 

 

 

Em 1990 a convite da diretora do Distrito Educacional da Tijuca fui tentar implantar Multimeios na educação em uma escola no morro do Borel. Para quem desconhece Multimeios: É o uso de tecnologias de informação e comunicação que contribuem no processo ensino-aprendizagem. É levar cinema, teatro, música, literatura entre outros, para dentro da sala de aula.
A escola era no centro da favela e já existia narcotráfico,  violência, menos que hoje, mas existia e muito. 

Eu adoro desafios e aceitei. Resolvi fazer um grupo de teatro com crianças na faixa de dez anos, muitos já aliciados pelos donos do pedaço. Idealizei alfabetizar através de artes cênicas. Um coral com os gritos das vogais e o corpo expressando o que a boca dizia. AI! OI! UI! Uma aula bem colorida. 

Eu adoro verde, amarelo, azul e branco.

Inicialmente os alunos não levaram muito a sério e acharam que eu só brincava com eles, o que era ótimo, pois os atraia para o meu intento. Com o tempo quase todos começaram a aprender a passar as emoções para o papel e também tentar ler o que eu escrevia neles para poderem representar. PI-PA. Mímica de uma pipa: Vamos voar com ela! Nosso céu é tão azul!

Tinha um senão. Alguns alunos dessa sala, chefiados por um menino de nome Umberto, faziam de tudo para dispersar os demais e colocar a perder tudo que eu estava prestes a realizar.
Resolvi investir no Umberto, fazê-lo cenógrafo, dar-lhe a chance de aparecer produtivamente.
Ele ainda tentou permanecer oposição, mas o meu carinho era tão grande que aos pouquinhos ele foi virando parte integrante e principal dessas aulas.Parecia feliz da vida e retribuía meu afeto até com flores. Eu acreditava nele, eu delegava e declarava ao menino que tinha esperança em vê-los todos alfabetizados, futuramente empregados, longe do crime e com perspectivas de vida longa, pois no esquema pivete viciado a vida é curta e o prazer fictício.

No final de 1990, grande parte da turma já sabia ler o básico e estavam prontos para entrarem para uma turma regular de segunda-série e concluírem a alfabetização. Reinava a branca paz, aquela que pinta entre os iguais. 

Meu coração batia alegre, pois havia conquistado a amizade e o respeito da comunidade, especialmente dos rebeldes Umbertos. Tinha muita fé, a quase certeza que havia conseguido vencer uma pequena batalha nessa luta tão antiga. Isso me levava a rabiscar de muito verde o amanhã.

Eu sempre adorei verde, amarelo, azul e branco.
 
Nas férias seguintes, janeiro de 1991, subia eu de carro pelo Alto da Boa Vista quando três garotos encapuzados pararam meu carro para me assaltar. Saltei rendida e entreguei tudo que tinha exceto um anel de pouco valor material, mas que foi de minha avó. Um mandou que eu o tirasse, mas outro disse que deixasse, pois de nada valia. Reconheci aquela voz baixa. Era do Umberto. Tentei olhar em seus olhos, mas um grito de ordem me fez desistir. Ele sabia que eu o havia reconhecido. Obedeci ao comando dos três canivetes, entrei no carro e parti com o coração partido.
 Naquele dia roubaram mais que o meu pouco dinheiro.
 
Levaram muito da minha crença, de que se cada um fizer a sua parte a gente consegue mudar o sistema.

Por ocasião da eleição de Luiz Inácio da Silva, muitos de nós viramos aquela professora de Multimeios que foi dar aula na favela. Acreditamos! Mas qual o quê! Levaram até os nossos anéis, feitos apenas da expectativa que Umbertos viessem a gostar de verde, amarelo, azul e branco.

Não tenho mais vontade de votar.Todos que chegam ao poder só gostam de amarelo.
Não me chamem de omissa por não querer mais exercer minha cidadania, pois quem lavou as mãos foi o Pôncio Pilatos da Silva, enquanto nós brasileiros fomos para a cruz. Ah! Antes que me digam que o Pôncio romano não agiu sozinho, foi pau mandado, fez conchavos (disso eu sei), afirmo que o Pilatos Tupiniquim idem e que ficará registrado na história como assassino da fé dos brasileiros! Quantos Umbertos ainda virão antes da salvação?


 Procura-se quem goste também de verde, azul e branco.


 

 

"Quis esse sonhador
Aprendiz de tanto suor
Ser feliz num gesto de amor
Meu país acendeu a cor

Verde as matas no olhar
Ver de perto ver de novo um lugar
Ver adiante, sede de navegar
Verdejantes tempos
Mudança dos ventos
No meu coração"

 

midi: Verde

Eduardo Gudin e José Carlos Costa Netto

 

 

Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 16/09/2007
Reeditado em 23/03/2014
Código do texto: T655103
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
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