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Epitáfio

"Note que se você tem tempo para reclamar e lamentar sobre algo,
então você tem tempo para fazer alguma coisa referente a isso."
Anthony D'Angelo

Outro dia recebi uma ligação da minha irmã que me deixou perturbada.

Mal atendi e ela já foi logo dizendo: “Sonhei que perdi todos os meus dentes. Logo morre alguém da família!”.

Fui criada ao meio de contos e crenças. Dentre elas, a do sonho com a perda da dentição causa impacto em todos, pois, segundo minha avó, os dentes representam pessoas da família e o fato de sonharmos que eles estão caindo só pode ser mau agouro: vai ser doença grave ou então, morte súbita.

Tradição de família é coisa séria. Na minha ninguém sonha com dentes sem acordar desconfiado.

Mas ela não parou por aí. Usando voz grave e entonação assustadora, avisou que seria alguém muito chegado nosso e que provavelmente morreria as 16:00 hs de algum dia próximo àquela data, pois em seu ‘momento premonitório’ existia um tal relógio marcando este horário.

Curioso é que nestes sonhos nunca aparece o nome ou a pessoa que terá tal destino.

Esse é o problema. Fatalmente aquele que ouve a trágica narrativa pega a profecia e coloca sob os ombros.

Desliguei o telefone, dei um profundo suspiro e pensei: “E se fosse eu? E se eu partisse hoje ainda, às 14:00hs? Quais as providências urgentes a serem tomadas?”

Foi então que passei a folhear as páginas da minha vida. Fui percebendo histórias inacabadas, trechos confusos e muito que ser escrito, ainda. Desejei ardentemente ter mais tempo para preencher algumas lacunas e poder concretizar ao menos parte dos grandes objetivos: fazer meu mestrado, lecionar, encaminhar o filho ainda pequeno, construir uma creche...

A cada novo pensamento, um susto. “Puxa! Como não tinha percebido isso, antes? Por que não falei com ela? Por que deixei de dar aquele telefonema? E aquela minha amiga ofendida? Onde estará? Preciso lhe pedir perdão!”

Ao meio daquela revolução mental eis que me surge uma outra pergunta, menos dolorida, mais prática e porque não dizer, mais engraçada...

“O que eu gostaria que escrevessem na minha lápide? O que pediria para falarem no último discurso, em minha homenagem?”

A princípio desejei que as palavras fossem de saudade e tristeza pela separação. Mas logo rejeitei.

Não seria nada original.

Bem neste instante recordei as palavras do compositor Sérgio Britto, na música Epitáfio: “Eu devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer. Eu devia ter arriscado mais e até errado mais (...) queria ter aceitado as pessoas como elas são; cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração”.
O compositor estava falando do que deveria estar escrito em seu túmulo.

Mas será que eu deveria descrever lamentos sobre o que não fiz? E o que foi bom? E aquilo que a gente realmente realiza? Isso não conta?

Daí imaginei algo mais ou menos assim:

“Aqui jaz uma pessoa comum. Alguém que nasceu com uma programação interessante, fez muita coisa errada, acertou tantas outras e que finalmente parte para o outro lado com um saldo positivo no banco da vida: muitos amigos, familiares e alegrias na conta corrente do coração.”

Estando ali, o que eu deixei de fazer já era. Só numa outra oportunidade. E vai saber quando será...

Primeira conclusão: o jeito é melhorar a qualidade da vida no agora, para então melhorar o momento da morte.

Mas surge uma outra questão: Por que será que dificilmente fazemos estas reflexões? Por que não nos preparamos para a morte, sendo que esta é a única certeza na vida?

Humberto de Campos comenta no seu texto ‘treino para a morte’ que é fácil nos prepararmos para uma viagem à Ásia. Basta que estudemos os costumes e as vestimentas daquele povo e já saberemos o que levar na mala. Porém, a preparação para o outro mundo não é assim tão simples. Isso porque as religiões tradicionais, que deveriam nos dar algumas explicações mais claras sobre a espiritualidade, acabam nos assustando com as possibilidades terríveis do além-túmulo.

Sim, todas as possibilidades são terríveis. Isso porque, segundo algumas crenças,  se eu pequei pertinho do momento da partida – por exemplo, no dia D, às 15:45hs, segundo as previsões do sonho odontológico da minha irmã – e não tive tempo para resgatar o débito, pedir perdão ou até mesmo de me arrepender pelo feito, Belzebu muito provavelmente estará me aguardando, com todo o tempo do mundo, para juntar-me à turma dos desatentos pecadores incandescentes. A outra possibilidade seria também complicada: Minutos antes de minha morte aceito Jesus, faço caridade e eis que adentro os reinos celestiais, cheio de anjos, arcanjos e serafins seresteiros, cantarolando os hinos de louvor a Deus, em eterna contemplação.
Um tédio.

Não me imagino sem trabalho. Uma eternidade sem trabalhar, só aurindo os ares do paraíso, deve ser como viajar para uma ilha maravilhosa e perceber que depois de seis meses a única alegria verdadeira seria a de poder voltar para casa, retomar a rotina e ser útil ao mundo.

São explicações contraditórias.

Deus seria sádico se permitisse que seus filhos queimassem eternamente no inferno ou nunca mais trabalhassem.

Prefiro algo mais lógico.

Para mim, o melhor preparo para a morte deve ser o desapego àquilo que não levamos para o outro lado. Precisar de menos comida, menos dinheiro, menor quantidade de sapatos é um bom começo. Celular nem se fala. Tem gente que não vive bem se não estiver de posse do último modelo Samsung. Imaginem chegar lá e perceber que o sinal da Vivo não funciona pro morto? Que desilusão.

E voltando às palavras do Sérgio Britto; amar mais, julgar menos...

Minha irmã nem sabe, mas fez uma grande coisa.

Aquilo que veio mascarado de notícia ruim, no final das contas, me fez enorme bem.

Já dá até pra repensar o assunto. Acho melhor que no meu epitáfio, escrevam: “Aqui jaz alguém que só pensou seriamente nesse momento quando os dentes da irmã caíram”.

Ninguém vai entender, mas não importa.

Só espero que meus amigos dentistas não fiquem bravos comigo...

Claudia Gelernter
Enviado por Claudia Gelernter em 17/09/2007
Código do texto: T656091
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Sobre a autora
Claudia Gelernter
Vinhedo - São Paulo - Brasil, 48 anos
37 textos (18835 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/08/17 19:53)
Claudia Gelernter