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A febre da morte na praia comendo frutas podres

Bom é conversar sobre música para passar a febre. Que coisa mais controversa a febre. Sentir frio com seu corpo quente. O pior é não saber o porquê; ou o que se tem. Sinto as minhocas da minha cabeça sob o sol de 39 graus. Elas ficam insanas. Se contorcem, pulando no asfalto quente de meus pensamentos. Levam-me à loucura; e eu a alguns outros mortais. Febre me provoca um estado de paixão muito inconveniente. Sinto como se eu não pertencesse aqui. Assim me levo a querer intensamente pertencer a quem pertenço, caso a morte – que não me namora – de umas voltas por aqui. Insanidade mesmo. Difícil é se morrer por febre. Pero me amedronta, depois do que ando lendo.

Falar de morte tem algo de medroso. Hoje faz dois anos que nosso grande garoto se foi. Ontem aquele velhinho não conseguiu dormir. Agora quando reza não sente mais a presença da companheira da vida toda. Isso o faz chorar. Mas ela está bem. Não se preocupe. Às vezes penso nos filhos que deixarei. E se deixarei. Talvez melhor não os ter. Ou talvez sim. Se tiverem alguém além de mim. E penso se as pessoas lembrarão. E como lembrarão. Espero que boas lembranças, como o Charles correndo na praia com a gente. Ou a Sula muito bêbada cantando samba, na beira da praia.

A praia. Saudades de lá. Zimbros. Nossa, eu era tão pretinha. Minha avó até hoje me chama de “preta da vó”. No auge da febre tenho vontade de andar pela praia e tomar um sorvete de casquinha, deixando sem querer uns pingos sujarem minha blusa. E ficar debaixo de uma arvore, com João-bolão, ou uma goiabeira. Pra subir e comer as frutas.

As frutas. Eu fui uma criança com muita resistência aos vermes. Subia nos pés de goiaba e ficava a tarde inteira me enchendo da fruta. E a gente via os vermezinhos andando lá dentro. Eu e meus amigos. Brincávamos de jogar goiaba podre nos ônibus que passavam. Um dia a janela estava aberta. Foi lindo. Aquela coisa podre adentrando a janela e se espatifando lentamente em vários pedaços rosa na cara de um sujeito. Claro que achei bonito! Não era eu, ué!

Também tive um professor de filosofia que gostava de goiaba. Ele era bem gordo e simpático. Tinha estudado 11 anos pra ser padre. Os garotos da sala perguntavam se ele conseguia ver o próprio pinto. Ele, muito calmo, dizia que tinha espelho pra isso. Quando não estava afim de dar aula, e nem nós de ficar na sala, falava: _Peguem goiaba pra mim que vocês estão liberados. Sim, tinha um pé de goiaba na escola. E íamos lá trepar na arvore. Ah, é verdade! Lá também jogávamos goiaba podre, mas dessa vez no vizinho.

No ano seguinte, quando eu estava em Minas Gerais, jogamos laranja podre numa professora. Estávamos fora do colégio. Jogamos lá para dentro. Na verdade não foi bem nela, respingou só. Os alunos que lá estavam disseram que ela ficou puta, e a laranja espatifou-se. Claro, depois a gente sai correndo!

Essas jogadas de frutas, geralmente observei, sem jogar. Minha perversidade, nesses momentos, estava em observar o onibus vindo, ou a janela aberta, e avisar aos outros. Por isso nós. Participei do todo. Também minha mira não é lá grande coisa.

Um amigo, o Pedro, já jogou um lixeiro na professora. Era engraçado, aquela clássica cena de filme: a professora vira, as bolinhas de papel voam nela. Ela era irritante, tinha uma voz estridente e berrava todo o tempo. Anotou o nome do Pedro:_Qual teu nome, moleque?
_João.
Acreditou. Foi expulsa depois. A filha dela não tem o dedão do pé esquerdo.
Ruca Souza
Enviado por Ruca Souza em 18/09/2007
Código do texto: T657750

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Sobre a autora
Ruca Souza
Itajaí - Santa Catarina - Brasil, 29 anos
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Ruca Souza