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QUASE CONSOLO

Se me perco entre as ruas da cidade à procura de o que fazer para que as amarguras desvaneçam, parece que tudo em volta acentua o que sinto. Meus olhos conseguem ver bem fundo, entendendo que o mundo é mascarado, as suas alegrias vãs e tristes. Como poderia me consolar? Em pouco tempo esqueço minha procura e adentro sem culpa o todo, que está cheio do que me amedronta: Frieza humana, hierarquias cruéis, poluição e disputas desiguais, em que o mais forte subjuga o mais fraco. Pior ainda, onde existem com tanta sobressalência o mais forte e o mais fraco.
Volto mais angustiado ainda. Encaixo-me na poltrona de uma condução que ignoro e procuro o campo. Quem sabe lá se esconde o que não achei nas ruas barulhentas, no vai e vem de máquinas e gente, no deserto abarrotado de pessoas tão ou mais angustiadas do que eu. Então encontro o silêncio, a natureza viva e cheia de cores, a vida insinuante nas curvas de um regato, na elegância de uma palmeira que se sente “em casa” e na piscadela de um pássaro que me acompanha com os olhos.
Mesmo assim não se aquieta meu coração. Continua oprimido e cede espaço para mais tristeza... Bem mais sutil e aveludada, com uma certa paz de espírito, mas permanece aqui... Bem cravada... Bem gravada nas paredes metálicas de meu íntimo. Concluo meu ledo engano e cedo à preguiça do ambiente, para pelo menos pensar um pouco, exatamente como não faço num dia-a-dia tomado pela pressa, pelos compromissos de trabalho e tudo o mais que abafa os meus sentimentos quando consigo fugir da folga, burlar os feriados e me esconder justo na correria.
Nada mais há para concluir, a não ser que tento escapar de mim, pular a janela do meu eu, fingir que posso enganar meus sentidos e sentimentos. A vantagem deste momento é que ele permite a introspecção e a reciclagem. Só assim me desafogo, expelindo em verso ou prosa, para que alguém depois beba e se identifique, achando alívio no meu alívio. Ainda bem que existe o dispositivo... A válvula eficaz de quem precisa deixar os seus conflitos escaparem pelo ladrão.

Demétrio Sena
Enviado por Demétrio Sena em 20/09/2007
Código do texto: T660789
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Demétrio Sena
Magé - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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Demétrio Sena