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CHAMANDO ISAURA.( Publicado Na Gazeta do Oeste, em 04 de novembro de 2007)

Passei e vi a casa quase ao chão. Não a derrubaram toda. Ficou uma boa parte em pé. Não sou saudosista. Até achei que havia resolvido esse assunto da venda da casa dos meus avôs. Mas não. Naquele momento percebi que não era mais a nossa casa. Deu-me vontade de entrar e chamar Isaura, a prima da minha avó que morava lá e sempre estava em casa. Deu saudade de Isaura, que embalou todos os netos com meiguice.E nem éramos netos dela. Éramos netos de sua prima. Desde aquele dia, eu calo o grito que chamaria Isaura e me faria entrar na casa que representava alegria, brincadeiras e segurança.
Quando menina, eu adorava escutar a conversa entre a minha bisavó Anna, Soledade, uma moça que costurava e morava na casa e Isaura. Viajava no tempo com elas e voltava enriquecida de lá.Minha memória abriga a vida no começo do século XX, com certa familiaridade.Como se tivesse vivido na época, em razão desse convívio.
Aquela casa evoca muitos sentimentos. Alegres e tristes. Todavia lá eu me sentia segura. Ali eu encontrava os livros maravilhosos de meu avô; ali via a família reunida; ali eu levava meus amigos. E ali vivi dores e perdas também.
Mas hoje eu quero chamar Isaura. A moça que não casou e foi morar com parentes, mas que não tinha nada da solteirona amarga. Ao contrário, era dona de uma doçura discreta. Era tímida, mas adorava conversar.
Para mim, só tinha um defeito: protegia meu primo Cláudio, que foi um dos meninos mais danados que conheci. Isaura era  a advogada dele e defendia seu cliente com fervor. A mim, aquilo era injusto, pois ele aprontava todas. Hoje acho bonita essa atitude e aceito a predileção dela.
De repente, me vejo junto a Luiz Henrique, outro primo, ao redor da mesa, esperando Isaura terminar de bater os bolos. A gente ficava conversando e quando ela passava as duas tigelas para as assadeiras, era a hora de nos esbaldarmos nas sobras da massa dos bolos mesclados com chocolate.
Hoje a minha saudade da casa veio por meio de Isaura. De suas histórias, como a de ter tido que se abrigar durante a noite em casa de estranhos quando a Intentona Comunista chegou a Natal. Ou a de um naufrágio ocorrido quando um cunhado seu era faroleiro na Praia de Touros (RN).
Isaura que teve um noivo,  não casou. Um dia me disse que sonhava muito com alianças. Ela não conhecia os significados dos sonhos, mas,na minha opinião, as tais alianças oníricas afloravam o seu desejo de ter alguém.
Todavia, se a vida a decepcionara por não ter lhe dado marido e filhos, ela não reclamava e oferecia sua doçura aos sobrinhos que a visitavam e a nós seus netos de coração.
Após tanto tempo a casa mudou de donos. Não é mais nossa. E não vai adiantar chamar Isaura ao entrar pelos jardins ou pelo portão da cozinha.
O assunto da casa dos meus avós termina aqui. Termina com Isaura, a moradora mais recatada e verdadeira guardiã daquela casa, de onde só saía para ir a missa. Termina com esse contato com ela, que deve estar no céu rodeada de anjos-namorados, pois se Isaura não tiver direito a esse céu, ninguém mais terá.

Evelyne furtado, em 20 de setembro de 2007.
www.perfildemulher.blogspot.com

Texto publicado no Jornal Gazeta do Oeste em 04 de novembro de 2007.
Evelyne Furtado
Enviado por Evelyne Furtado em 20/09/2007
Reeditado em 04/11/2007
Código do texto: T661075

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Sobre a autora
Evelyne Furtado
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil
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Evelyne Furtado