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NO METRÔ DO RIO

NO METRÔ DO RIO
por Lílian Maial


Nessa rotina de vida, que nem temos tempo para refletir sobre coisas simples, vira e mexe alguém nos surpreende com atitudes simplórias e bem-vindas. Já saímos de casa com todo o plano traçado, desde o trajeto até os sorrisos.
Naquela terça-feira nada me pareceu diferente do normal. Acordei invariavelmente atrasada (talvez algo intencional, já que o despertador havia tocado estridentemente algumas vezes, e só se calou após alguns safanões). Levantei contente pelo dia claro, embora chuvoso. Tomei meu banho de acordar, aprontei a mamadeira do pequeno, preparei seu banho, me arrumei no capricho (afinal teria reunião com chefias), chequei tudo na bolsa e sacola da academia de ginástica, e saí correndo, sabendo que perderia o ônibus mais vazio.
Trabalhei normalmente pela manhã, no Centro, sob o estresse corriqueiro, saí apressada para um lanche rápido no lugar do almoço, e a estação do metrô, para chegar ao consultório.
O vagão estava cheio, mas com todos sentados. O único espaço livre era numa daquelas cadeiras de cor laranja, preferencial para idosos, deficientes e gestantes ou pessoas com crianças de colo. Como não havia ninguém de pé, utilizei o tal assento, pelo menos até chegar algum idoso, ou vagar outro lugar.
De repente, comecei a sentir-me espiada. Aquela sensação estranha de que alguém nos observa.
Olhei em frente e nada.
Percebi alguns rostos curiosos: havia um homem de terno e gravata, mas com o olhar tão aprisionado, que o pensei cativo dos ponteiros, perdendo o tempo. Havia aquela moça extravagante, de cabelos com a aparência de sempre molhados e a boca sempre brilhante. Lançava olhares insinuantes para quem quer que a olhasse. Ao seu lado, uma mulher magra e de aspecto bem-sucedido, séria e triste. O rapaz que entrega correspondências, tipo office-boy, com walkman, completamente distraído na música.
Um homem de meia-idade, que me fitou por alguns segundos, mas não encarou. Olhava de rabinho de olho. E outros que viajavam mais velozes em seus pensamentos que o próprio trem.
Ainda com o incômodo da sensação, notei que a senhora de cabeça branquinha ao meu lado e de óculos me estudava de cima a baixo. Acreditei que fosse por eu, tão jovem e de aparência saudável, estar sentada no lugar dos deficientes e idosos. Mas seu olhar não era de reprovação, ao contrário.
Sorri-lhe delicadamente, ao que fui retribuída, e iniciamos um diálogo interessante. Logo de pronto ela questionou se eu não era de família cigana, ao que assenti, informando sobre meu avô materno. Perguntei-lhe como poderia saber desse detalhe, e ela disse que sabia, porque eu aparentava traços de mulher cigana, mas que havia uma outra cigana, que me protegia e me acompanhava há várias vidas. Bem, aí a conversa mudou de rumo, porque não sou crédula nessas coisas de outras vidas. Ela deve ter percebido e insistiu, argüindo se eu já havia tido algum acidente grave e saído ilesa, se já não havia me sentido "protegida". E o pior é que sim, já havia sofrido alguns acidentes sérios e nunca sofri nada mesmo. Já tive algumas intuições que me livraram de situações de perigo. Mas e daí?
E saía gente e entrava gente no metrô, e a senhora não parava de falar na tal cigana.
Nisso entrou um senhor idoso, para o qual cedi o lugar. A velhinha não se deu por satisfeita e aumentou o volume da voz, tornando nossa conversa pública. Perguntou-me se eu já não havia feito um "book", que eu era muito bonita e merecia estar em capas publicitárias, novelas, cinema. Claro que todos passaram a prestar atenção na minha fisionomia, alguns com aprovação, outros nem tanto... que mico!
Eu sorria tímida (fazer o quê?) e abanava a cabeça negativamente.
Ela voltou à cigana e disse que eu sempre conseguiria o que quisesse, que bastava pedir à minha cigana (como se eu fosse ficar trabalhando 12 horas por dia, enfrentando trens, ônibus e velhinhas falantes, se tivesse tamanha proteção).
Comentou que eu deveria comprar e ter sempre em casa um cacho de uvas verdes bem bonitas, num pratinho prateado ou dourado, que era do agrado da cigana (esperta ela, não? Por que não morangos ou cerejas?).
Nesse meio-tempo, chega a estação da tal senhora, ela levanta, caminha até uma das portas, olha novamente de longe para mim, sorri e diz: - "se eu fosse você, faria o "book" e entregava na Rede Globo". E sai, sorrindo, confiante que havia conhecido duas ciganas e feito sua boa ação do dia.
Por mais inusitado que tivesse sido o diálogo, não só me distraiu, como me afastou o pensamento de coisas tristes e complexas. Não senti tanto a correria, atendi aos meus pacientes com calma e alegria, e ainda voltei de metrô para o Centro, para o final do turno de trabalho.
Só no Rio de Janeiro mesmo, para essas coisas acontecerem.
Não seria aquela, então, a minha cigana?
Não sei, mas comecei a prestar a atenção em uvas verdes...


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Lílian Maial
Enviado por Lílian Maial em 01/11/2005
Código do texto: T66182

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Sobre a autora
Lílian Maial
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Lílian Maial

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