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Laura...Por uma fração de segundo

Laura tem algo a nos dizer. Confesso. Laura tem pequenas taras. De tão pequenas posso falar delas sem o menor constrangimento. Sem pulgas atrás da orelha. Laura tem tara por espelhos, por relógios e por amores impossíveis.

Começou cedo com suas manias. Tudo por causa de um relógio que ganhou de sua avó. Tinha ponteiros. Com ele marcava cada coisa que fazia e quantas voltas os ponteiros davam em seu relógio. Quantas vezes tinham a oportunidade de ver ainda mais uma vez os números que encontravam. De tão rápido que se vão, pouco tempo sobrava para irem conversando, enquanto giravam em seu pequeno e magro pulso.

A medida que ia crescendo, percebia que, mesmo o ponteiro das horas, podia levar algum tempo, mas se encontrava outra vez com cada um dos números. E, toda vez que havia o encontro, para ela, era diferente.

Da primeira vez que amou, o tempo voava e os ponteiros seguiam a corrida ligeira do seu coração... Quando tudo parecia morrer ao redor e uma das noites da vida aparecia, o tempo parava, o relógio, lentamente, marcava cada fração como se a espetasse com a ponta aguda de seus ponteiros.

Mas, outra vez, como mágica, de novo se encontravam os ponteiros e tudo parecia diferente. Podia ser a mesma situação, o mesmo relógio, as mesmas pessoas, e nada se repetia do mesmo jeito.

Um dia, ficou chocada. Não se reconheceu no espelho, seu sorriso era o de outra pessoa. Passou a respeitar os espelhos – mostravam as pessoas como são e não como fazem de conta ser todo tempo.

Dos espelhos e relógios, veio a aprender a colecionar amores impossíveis. Curiosamente, descobriu amores impossíveis por coisas que jamais teria, como os pôr-do-sóis que perdeu e os amores de criança. Mas guardava na memória as várias vezes que se apaixonara pela vida, pelas muitas vezes que os ponteiros marcaram estar apaixonada de novo pela mesma pessoa em vão.

Nessa fração de segundo de descoberta, tirou o relógio, cobriu os espelhos e tratou de fazer amores serem possíveis. Abraçou o vento e foi em busca de um relógio sem ponteiros, sem números, página em branco, sem tics ou tacs, apenas o som do pulsar do coração em seu peito.
Isadora Pitanga
Enviado por Isadora Pitanga em 21/09/2007
Reeditado em 09/03/2008
Código do texto: T661901

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Sobre a autora
Isadora Pitanga
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 36 anos
74 textos (8582 leituras)
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Isadora Pitanga