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Tudo mudou tanto...



Por esses dias eu estive pensando nas mudanças que pude presenciar no meu quase meio século de vida; elas foram tantas e tão grandes que pensei em compartilhar o meu olhar sobre a memória delas com meus leitores e aproveitei para fazê-lo através desta crônica. Tudo mudou mesmo!
Assisti durante esses anos todos ao desmoronamento de preconceitos que eram levados a sério, começando pelo movimento a favor da homossexualidade e contra o machismo, tão bem representado pelos “coronéis”.
Minha geração assistiu ao homem ir à lua e ao nascimento do computador e, com ele, ao surgimento mágico da revolucionária internet. Desde o melhoramento dos fertilizantes às sementes clonadas, tudo explodiu e a minha geração caminhando, tomando coca-cola, mas vendo o uísque deixar de ser tomado apenas com duas pedras de gelo para ser tragado com água mineral em um paralelo mais palatável, para seus admiradores.
E nesse meio século surgiram a belíssima declaração dos direitos humanos, os aparelhos de televisão, os fornos microondas, o chuveiro elétrico e tantas outras coisas mais admiráveis e prazerosas para o nosso dia-a-dia.
E o homem, além de ter ido  à lua,  construiu uma estação espacial, ouviu o Big-bang e descobriu novos planetas e água em Marte.
A família subiu uma ladeira íngreme e pudemos ver pai contra filho e filho contra pai, como se a sociedade houvesse mudado as regras de convívio, radicalmente. A virgindade deixou de ser um tabu glorificado para ser falta de coragem de avançar-se ao sexo sem barreiras também descoberto intensamente por nossa geração.
Aquela família tradicional, com o chefe à cabaça da mesa, os filhos calados e a patroa quase sempre de pé, ao lado do esposo, servindo-o, ah!, isso desmoronou mesmo. A mulher subiu a escada dessa mudança de 2 em 2 degraus e hoje, nivelou-se com o homem e com ele compete e avança em nível de igualdade. A isso também a minha geração assistiu.
E os velhos que após os 60 careciam da velha cadeira de balanço de palhinha, esses se deram às aventuras dos passeios coletivos e redescobriram a vida. Mesmo após os 70, casam-se novamente, andam de bermudas e sem camisas e fazem cooper nos calçadões das pequenas e grandes cidades. Para esses, foi desabrochada uma segunda vida com a tal melhor idade, fruto adocicado que a senilidade conheceu e para ela despertou. E as conhecidas “coroas” hoje não o são mais e dançam e participam da vida e “ficam”, para não terem que amar compromissadamente dentro do casamento. As balzaquianas vivem bem mais intensamente hoje do que ontem. Prole, a minha geração assistiu à queda de uma média alta de mais ou menos 6 filhos por família para apenas 1 ou 2 no máximo. É que o custo de vida mudou e teve que adaptar-se à economia globalizada.
O circo de lona rasgada dos arredores das cidades modernizou-se, aculturou-se e entrou na televisão, outra conquista admirável e poderosa, e tornou-se o Circo de Soleil. Quanta mudança, não? E a minha geração presenciando.
Veio a 2ª Guerra Mundial, o muro de Berlin caiu, o comunismo acabou com a União Soviética e Pelé fez o milésimo gol.
E aos nossos olhos apareceram a pílula anticoncepcional, a liberação da sexualidade e doenças temíveis como a AIDS.
A vida ficou menos nostálgica do que antes, e os acendedores dos lampiões da rua foram trocados pelas lâmpadas altas e esbeltas imitando o luar. A tecnologia virou vulcão sem parar de erupcionar novidades que rapidamente se integraram ao dia-a-dia da sociedade. E a longevidade criou novos hábitos, e os dorminhocos aposentados de minha geração passaram a viajar e a curtir a vida melhor sem se preocuparem com a morte que passou a visitá-los com muito mais demora. A vida passou a ter mais valor!
As cidades grandes tornaram-se os burgos da violência, e o ensino sepultou o Latim, a cultura, a disciplina e a ética. Os professores passaram a não mais serem respeitados como antes. E deu no que deu hoje com essa geração do tênis colorido, do chiclete de bola e do linguajar perdido do “com certeza”.
Os prostíbulos eram proibidos para menores de dezoito anos e hoje os encontramos dentro dos cinemas, dos próprios lares e em qualquer outro lugar público ou privado a que se vá.
O padre, o juiz, o prefeito, o governador eram todos autoridades respeitadas, antes mesmo de serem admirados. As delegacias eram freqüentadas apenas por bandidos famintos que roubavam galinhas ou coisas parecidas. Hoje a televisão nos mostra o bandido da luz vermelha, os assaltantes de bancos sendo filmados na hora em que estão roubando, os seqüestros relâmpagos, as mortes mais obscenas e a inversão da ordem social por completo.
E ainda hoje, pensando nas mudanças que a minha geração presenciou, senti também vontade de pensar no que poderia ser feito para que apenas os frutos bons, as coisas boas dessa mudança toda pudessem ser por nós consumidos. O que fazer então?
Eu resolvi ir às ruas e observsar de perto o que ainda estava mudando, acontecendo, barulhando e bagunçando os costumes e a vida. E foi então que encontrei jovens drogados, cheios de piercing, um vocabulário chulo, modos grosseiros e egoístas, ruas imundas, bandidos festivamente soltos, livres, passeando com suas condenações como se não houvesse justiça para deles cuidar. Esforcei-me para lembrar o nome do ministro da Educação e confesso que não consegui. Foi aí que pensei sobre o que o  Presidente da República nos poderia passar com seu próprio modelo de vida! E aí minha alma preferiu calar-se e voltar a pensar em minha geração e postergar o que estava labutando à procura de saídas para a nova geração que, perdida nas ruas de nossas cidades, ainda não pode contar meio século de história como a minha.
É triste,  mas caminhamos por estradas camaleônicas, sob leis desrespeitadas, conchavos dispépticos, condutas vergonhosas. O homem de bem está desaparecendo; malandros se arvoram como membros legítimos de movimentos sociais espúrios e, deslealmente à sua própria consciência, vítimas dos erros sociais da política vigente, invadem, matam, xingam, desobedecem a tudo e a todos nas barbas da lei.
Até onde iremos? Nossa maior favela não está nos morros, mas em nossos lares e em nossas escolas. O bandido que há nas ruas é o que criamos no dia-a-dia. E essa nova geração que aí está, talvez não viva sequer hoje o que a minha conta, embora lamentando pelos solfejos de dor e a angústia da desesperança.
A minha geração sabe tanto..., mas também foi engolida pelo dragão hostil da modernidade; vou chamá-la para rezar pelo mundo ao invés de ficar tecendo lágrimas salgadas de um louco e pavoroso descontentamento e desesperança! Que pena!Essas duas gerações bem que poderiam ser diferentes...
Paulino Vergetti Neto
Enviado por Paulino Vergetti Neto em 22/09/2007
Código do texto: T663160
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Paulino Vergetti Neto
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 59 anos
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Paulino Vergetti Neto

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