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O conto agora quer ser crônica

- E atrevido que ele é. Sabe! Chamou-me para tomar café da amanhã na Padaria Globo. Pior, nem fala certo, fala Padaria “Grobo”. Não se enxerga! Tomar café em padaria. É ruim hein! Na próxima vez que ele me encontrar vou dizer-lhe poucas e boas. Vou coloca-lo no lugar dele fechar e jogar a chave fora. Ah! Se papai souber, manda-lhe dar uma surra. E eu acho é pouco. Um “cortadorzinho” de canas de engenho de meia pataca querendo se aproximar de mim. Eu moça de família. Bem nascida. Tudo do bom o do melhor. Fina. Isso é até um desrespeito. Vou consultar Arnandinho, meu irmão, que é advogado, Acho até que crime. Acho não, é crime. Coloco-lo na cadeia e pronto. Ele é até bonitinho, mas quem sabe de onde saiu?  Cortador de canas, não, de jeito nenhum.
Eu na mesa ao lado não conseguia me concentrar na minha leitura: O velho e o Mar. Teria que fazer um trabalho de faculdade. Alias, migrei do interior para me formar na capital. Queria ser professor. Só aos 48 anos de idade isso aconteceu. Muita água rolou em baixa e em cima da ponte. E digo aos marmanjos, estudei na melhor época: Trabalho certo, casamento, filhos quase tudo resolvido. Voltei a estudar e me formei, e foi muito bom. Mas voltemos a meu “cronto”.
Em algum momento, deve ter sido no começo da explosão de descontentamento de Vanessa, me perguntei: como e onde encontrar o amor, esse sentimento inexplicável. Mas por quê perguntaria isso. Vanessa tinha lá suas razões. Confidenciava o ocorrido a sua melhor amiga, Geane, e de certa forma, Marcelo era sim, um rapaz rude, sem muito jeito, talvez sua formação interiorana. Ele seguia a tradição da família, se dizia que era, era. Honrado, honesto, respeitador, talvez até um cortador de canas, sim, mas apaixonado.
Eu vi, o crontista está sempre no melhor ângulo de visão. E parece que todo o universo conspira, Marcelo se aproximando. Seus olhares se cruzaram. Vanessa quis sair dali num ar de ofendida. Marcelo mais rápido toma-lhes as mãos. Ficaram estáticos.
Eu e Geane assistimos nos próximos dias: Vanessa e Marcelo num recanto mais afastado da área de convivência da faculdade. Eu de longe não enxergo bem, uso óculos, tinha a impressão que estavam brigando num agarramento frenético, mas Geane trinta anos mais jovem que eu, jurava que Vanessa só estava conversando com o rapaz. Curioso, um dia perguntei a Vanessa, o que tinha acontecido? Ela fez-se zangada, mas respondeu: - resisti, eu resisti! Sabe! Eu resisti o quanto pude, mas quando ele pegou nas minhas mãos. Aquelas mãos ásperas de sei lá, de cortador de canas, aquele atrevido! Aquele danado! Miserável! Só tem uma coisa o café da manhã na padaria eu não tomei!
-Vanessa!
-Tá bom! tá bom! Manuel! Tomei, tomei, pronto..  só uma vez.
Aos quarenta e oito anos de idade, era o vovô da turma, vi a meninada em cada “briga de foice” nos escuros.
Numa briga desta, ainda jovem, descobri que em muitas vezes a cabeça nega, mas o corpo consente.
O amor é realmente um sentimento inexplicável!
Desculpem-me. Essa parte é a do comentarista.
Crontei. Depois eu cronto mais.

Manuel Oliveira
Manuel Oliveira
Enviado por Manuel Oliveira em 22/09/2007
Código do texto: T663610
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Sobre o autor
Manuel Oliveira
Olinda - Pernambuco - Brasil, 62 anos
64 textos (5100 leituras)
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Manuel Oliveira