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Prestação Social

Pra variar, a viação Santa Terezinha estava lotada. E, naquele dia em especial, mais lotada ainda. Graças a minha estratégia infalível, que incluía comprar as passagens e  ficar do lado de fora da rodoviária, esperando o ônibus chegar, não tive o desprazer de viajar no sacolejo do corredor.
Então, lá estava eu, sentado, mochila no colo e a mesma cara de “paisagem”. Ao meu lado havia um senhor barbudo, chapéu na cabeça e um olha perdido. E, no corredor, sobraram cinco azarados: duas policiais do estado de São Paulo, um guarda civil mineiro, uma garota de mais ou menos vinte e cinco anos, além do cobrador.
A viagem seguia por seus quilômetros. A distância entre as duas cidades não era tão grande assim, e a viagem não passava de uma hora. Daí, no meio do caminho, o ônibus pára. Ali, desceram duas senhoras que estavam sentadas mais na frente. Na hora, pensei comigo “Vai ser uma briga por esses dois lugares”. Nada. Nenhum dos cinco se manifestou. Mais cinco quilômetros à frente, outra parada. O barbudo a meu lado desceu, além de mais um rapaz que sentava em um banco à minha frente. “Bom, agora são quatro acentos vazios, o cobrador vai em pé por profissão. Dá certinho”. Errei de novo. Ninguém deu um passo sequer para qualquer um dos bancos vazios.
A situação ficou mais curiosa quando logo em seguida, o ônibus novamente parou, mais três pessoas desceram, e nenhum dos cinco se manifestou. Resolvi olhar para os corajosos passageiros, e foi aí que cheguei a seguinte conclusão: Todos eles queriam sentar-se em uma das poltronas. O policial não se manifestava, pois não queria parecer fraco o suficiente perto das mulheres que estavam de pé, e, além disso, era um “homem da lei”, deveria dar o exemplo e, ficar estático. As policiais de São Paulo também não se sentaram, pois o policial também não se sentou. Não queriam parecer “inferiores” a policia mineira, e não queriam deixar espaço para a velha discussão de que homens são mais resistentes do que mulheres. De todos eles, a garota era a mais aflita. Dava para perceber que ela também queria se sentar, relaxar as pernas, descansar,  mas, porque ninguém tomou decisão alguma, ela resolveu que ali estava bom, do jeito que tava.
Besteira. Esse seja talvez um dos grandes problemas da humanidade. As pessoas se preocupam demais com a opinião dos outros, não agem por si mesmas. O egoísmo é bem vindo em muitas ocasiões, em muitas situações. Afinal, se todos agissem e pensassem por conta própria, sem se importarem com o que os outros pensam ou deixam de pensar, teríamos uma sociedade mais autêntica, verdadeira e menos preconceituosa. Além disso, as dores na perna e o desconforto do corredor não existiriam.
Mas, o cobrador continuou em pé por profissão.
Vitor Marques Borges
Enviado por Vitor Marques Borges em 22/09/2007
Código do texto: T663755

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Sobre o autor
Vitor Marques Borges
Campanha - Minas Gerais - Brasil, 31 anos
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Vitor Marques Borges