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Lula lá

        A feira estava montada de ponta a ponta e suas barracas ostentavam um colorido de frutas, legumes e verduras que, de longe, parecia um arco-íris estendido sobre o asfalto da rua.

        Como sempre, a barraca de peixe do japonês Nikioto era montada numa das pontas da feira, exatamente ao lado de seu caminhão Ford, azul, carregado de caixas plásticas cheias de peixes, fardos de jornais velhos, isopores e gelo.
Aos poucos os compradores vinham aparecendo e vagarosamente visitavam barraca por barraca, olhando os produtos e seus respectivos preços e, assim, ficavam aguardando o melhor momento para efetuarem suas compras. Ainda era cedo. Ninguém comprava, ninguém vendia: nem peixe, nem nada. Também, com o sobe e o desce do dólar, quem é o maluco que iria querer se engasgar com espinhas de peixe, caro pra burro? Calma, rapaz! Nem todo peixe tem espinha. Lá, isso é verdade.

        As horas vão se passando e o japa Nikioto percebendo que aquele era um dia de maus negócios, resolveu por em prática o velho ditado que diz: " a propaganda é a alma do negócio". Dito e feito. Abriu a porta do caminhão e retirou da boléia uma imensa faixa pintada com letras bem vermelhas e a estendeu na lateral do seu velho Ford, azul. Todas as pessoas que olhavam para a feira, certamente teriam que ler aquele outdoor que ali ostentava as seguinte palavras:

                  Hoje - Aqui - Lula

        Foi o suficiente para Nikioto vender tudo que tinha em sua barraca: sardinhas, lulas, camarões, piabas, polvos, ostras, etc, etc, até mesmo o gelo que sobrou, ele vendeu.
Eufórico com a rapidez tal como vendia seus peixes, Nikioto nem percebeu o que estava acontecendo em sua volta. Somente ao dar o troco ao seu último freguês é que ele espantou-se com a pergunta que o mesmo lhe fizera:

        ― Ou japa, que hora Lula chega? O povo está esperando.

        ― Que hora, que Lula? Indagou o pobre japa olhando para uma enorme multidão que em sua frente agitava bandeiras vermelhas, cantando e gritando " Lula lá, Lula lá". A confusão estava arrumada. Já se via alguns guardas fazendo segurança para famosos correligionários locais, que, eufóricos, aguardavam o desfecho sobre um caminhão tipo trio elétrico que acabara de disparar um canhão de som musical e de chamadas para o evento. De vez em quando alguém se aproximava do balcão da barraca de peixe e indagava ao japonês:

        ― Ou japa, Lula vem ou não vem?

        E o dito cujo sempre respondia:

        ― Qui, qui tá acontecendo? Eu nom saber nada. Nada.

        É quando os ânimos já estavam bem aquecidos que uma mulher nervosamente indaga ao japonês.

        ―  Me diga uma coisa aqui seu japa, onde diabos Lula se meteu, onde ele está? Diga.

        E o Nikioto meio encabulado com tudo que via e ouvia, respondeu:

        ―  Eu nom saber lula, juro. Eu já vendeu todo lula. Freguês levou tudo, tudo.

        E tudo começou com o boca-a-boca de faladeiras que saiam da feira e espalhavam para todos que encontravam pelo caminho : Hoje tem lula na feira.

        Durma-se com um barulho desse.


José Pedreira da Cruz
Enviado por José Pedreira da Cruz em 02/11/2005
Código do texto: T66633
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Sobre o autor
José Pedreira da Cruz
São Paulo - São Paulo - Brasil
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José Pedreira da Cruz