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Outubrada

 

Passar ao leitor a impressão de espontaneidade não é brincadeira.

Fernando Sabino, por exemplo, sempre fez questão de declarar que cortava um dobrado para obter esse efeito e nunca escondeu que mexia muito nos seus textos antes de liberá-los para publicação. Quando o lemos, porém, é como se estivéssemos em volta de uma mesa de boteco, num papo animado e inteligente com os amigos, onde a alegria fosse a prova dos nove oswaldiana.

Um homem capaz de entrar num banheiro de restaurante e cumprimentar a si mesmo ao passar pelo espelho não dá muito a idéia de um escriba minucioso; mas não se iludam — na hora do ofício, baixava o caboclo revisor, uma espécie de pulo do gato, e afinal o gato era ele.

Confesso que desconheço se o episódio do banheiro é biográfico, mas sei, de corpo presente, que na editora dos seus livros, ao sair uma tarde do elevador, cumprimentou, na maior inocência, o cartaz em tamanho natural de sua própria figura, que aguardava no saguão do prédio o momento de ser levado para a Bienal do Livro. Foi uma farra e tanto entre os funcionários quando a notícia se espalhou, e ele mesmo ria como um garoto, já engatando a terceira e tirando da cachola um monte de histórias semelhantes, numa verdadeira canja de cronista abençoado.

E lia Montaigne.

Lia justamente o ensaísta cuja palavra já não soa assim tão espontânea ao leitor moderno, massacrado pela extrema simplificação e diluição da frase francesa nos autores de hoje. Ou seja, lia Montaigne e outros clássicos com a esperteza privilegiada dos feras na crônica, que sabem como induzir no cotidiano as lições do inaparente nesses grandes escritores. Quem duvidar, que leia a lista de referências e citações que acompanha O grande mentecapto (a rigor, um romance-crônica).

Mas isto aqui são apenas notas com endereço certo. Lembrei-me de Sabino, porque procurava em minha estante um livro dele para dar de presente a meu irmão caçula, que no próximo dia 6 estará completando cinqüenta e um aninhos de idade e se amarra em Fernando. Este faria aniversário no dia 12, Nietzsche, em 15, Vinicius, por aí.

Outubrada.

 

[24.9.2007]

Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 24/09/2007
Código do texto: T666618

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 69 anos
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