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UM CRISTO FRUSTRANTE

                                 (Antes de ler a crônica, saiba que ela foi feita preservando meu respeito pelos fiéis de qualquer segmento. Apenas relato algo, e opino em nome da liberdade de expressão. Aceitarei com carinho, e sem más respostas, qualquer crítica feita à minha visão. No mais, perceba que não utilizo qualquer expressão desrespeitosa).
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Eram 28 de março de um ano que já não lembro. A parte mais ortodoxa do cristianismo acordou enfezada com uma notícia que veiculara na mídia na noite anterior. Jornais e noticiários de tevê estamparam nas manchetes um rosto bem mais provável do possível jesus Cristo. Bem mais provável, pelas feições próprias das plagas onde ele nasceu. Revelou-se o rosto de um Cristo de pele enferrujada, os cabelos espetados, os traços meio trogloditas.
Na verdade, o que pareceu ofender mesmo essas pessoas foi a idéia de um Cristo menos Brad Pit ou Fábio Assunção. Todos se habituaram à ditadura artística de um Messias garotão de praia, desses que jamais morreriam numa cruz para salvar a mãe... muito menos a humanidade. Ninguém parece suportar a idéia de que anda adorando a figura de um homem realmente simples. A simplicidade massificada de um Jesus galã de filmes americanos faz bem ao ego dos religiosos tradicionalistas. Além do mais, imaginar-se ajoelhado aos pés de um Cristo do tempo de Cristo é demais para um grupo que nem percebe ter cristalizado uma imagem própria do seu tempo. Louvar um homem de feições primatas, axilas porcerto malcheirosas e, sobretudo, negro ou quase, não está nos seus planos.
A verdade é que a notícia jamais se repetiu, talvez proibida por não sei quem, com a concordância das massas fiéis. Viu-se como absurdo apresentar-se um Salvador de Belém da Judéia, quando no Brasil, por exemplo, parece bem melhor cultuar um Salvador de Belém do Pará. Veio à tona o preconceito que rói a entranha dos que buscam a salvação da alma, para morar no paraíso, na esperança que lá só existam anjos dourados e santos "mais alvos do que a neve". Assim como o Cristo, o próprio Deus que se conceituou não pode frustrar a imagem de uma religiosidade européia ou norteamericana, estabelecendo cada vez mais uma grande corrente que abafa e sufoca as culturas religiosas secularmente excluídas.
Seja como for, haverá sempre um sobressalto no ar, guardado para ocasiões como aquela de um certo 28 de março de um ano qualquer. A guarda está montada, o alerta é contínuo, pois ha´um Cristo frustrante que a qualquer momento pode ressurgir, por mais que se movam processos contra os "profanos" que ousam "desloirar" o Salvador da humanidade.  
Demétrio Sena
Enviado por Demétrio Sena em 25/09/2007
Reeditado em 26/04/2008
Código do texto: T667702
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Demétrio Sena
Magé - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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Demétrio Sena