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Mein Kampf, sem photoshop

Jardim Botânico
Meim Kampf, sem Photoshop

O Jardim Botânico  é uma das maiores áreas verdes dentro da Cidade do Rio de Janeiro. Acho que só perde para a Floresta da Tijuca. Eu sabia que ia encontrar flores, palmeiras, bichinhos e coisa e tal. Só não sabia que ia me divertir tanto...

Começa pela secretária: uma doida que nem eu. Ela ficava olhando o tempo todo o relógio pra cronometrar o tempo que eu teria antes de me desesperar pelo fato de estar em cima da hora de atender.

Ela gritava: Me dá sua bolsa! Corre, tira foto daquele bicho! Olha o macaco na sua cabeça! Rápido! Nossa! Uma florzinha linda! Tira meu retrato junto desta jaca!".

Paro aqui para explicar: Eu sou fissurada em jacas e lá a gente vê um monte. Por empatia, minha secreta ficou também admiradora desta fruta tão... vamos dizer assim... exótica...

O problema é que eu detesto óculos e sou obrigada a usá-los para enxergar coisas pequenas. Drummondeando: Para que servem tantas coisas pequenas, meu Deus?!

Essa coisa de mirar, ajustar imagem, centralizar, poxa, é difícil pra caramba! E, numa máquina fotográfica, fica ainda mais difícil. Eu já quebrei milhares de óculos por pendurá-los em lugares do meu corpo os mais variados. Já perdi um monte também.
Claro! Se eu tiro os óculos, como vou saber onde eles estão?

Rapidinho e correndinho, lá eu estava, tirando fotos de tudo que eu achava bonito e esperando que ficasse bom. Os macacos corriam demais e tudo ficava tremido.

Aliás, macaco é sem vergonha mesmo... Eu corria pra eles e eles fugiam. Quando eu sentei num banco para ver as imagens registradas, pegando os óculos, veio um sem vergonha fugitivo, bem pertinho de mim e ficou pendurado acima de minha cabeça,
numa árvore, me sacaneando. Parecia que ele sabia que eu estava tentando tirar sua fotografia. Ele fazia pose, me olhava profundamente nos olhos. Quando eu me preparava para fotografar, o palhaço saía correndo.

O mesmo aconteceu com a garça. Ela estava dentro de um riacho. Eu quase caí de uma ribanceira para pegar o seu melhor ângulo. Quando eu acertava a lente, a nojentinha dava de costas lentamente, me esnobando. Quando minha secretária me viu quase dentro d'água, sem entender o que eu fotografava, ficou em silêncio. Ela não sabia o que eu via, mas, se eu estava atenta, devia ser importante... Imagino o que passa na cabeça dela  por ter uma chefe que corta os outros e, ao mesmo tempo, brinca de fotógrafa da National Geographic...

Vi um grupo de crianças de uma escola sendo guiados pelas professoras. Não agüentei. Eles estavam tão lindos em círculo, ouvindo o que elas diziam, que eu tirei uma foto. Não prestou: Eles se assanhavam e queriam posar bonitos para minha lente. Tudo bem. Já que eu tinha interrompido a aula deles, as professoras deixaram que fizessem a bagunça geral.
 
Eu parecia uma criança como eles: "Vamos lá, turma. Preparem-se! Fiquem unidos que eu to me preparando aqui! Calma! Não andem pra frente!".

Não adiantava. Quanto mais eu dizia para ficarem quietos, mais eles andavam pra frente. Eu recuava, agachada, e eles adiantavam mais um passo... Acho que eles estavam de gozação, que nem os micos e a garça... Mas, gente, é muito gostoso estar em volta de crianças. Elas trazem energia e, naquele lugar idílico, as flores mais lindas foram elas, repentinamente conectadas ao meu momento.

Depois de algumas horas, e depois de ter gasto toda a memória da máquina, estava na hora de ir embora. Aí, achei o esquilinho na árvore, roendo algo e me olhando, mas sem se mexer. Qualquer movimento em falso, ele fugiria. Preparei o macro, andei devagar, fui apagando as imagens que eu poderia dispensar, para registrar aquele instante. E, de repente, ouvi um senhor gritar atrás de mim: "Caraca! Que demora pra tirar uma foto! Tira logo esta foto!".

Eu gritei: "Pera! To tentando ter espaço na máquina!". E eu corria com os dedos, olhava para o bichinho e, de banda, fazia cara feia para o senhor. Só que ele não estava falando comigo e, sim, com suas filhas, que tentavam fotografar a mesma cena.

O bicho olhava sério, sempre roendo freneticamente a frutinha, mas grudado ao tronco da árvore.
 
Recomecei o ritual: Limpo fotos feias (Ser pobre é uma m... Preciso de memória extra pra máquina); graduo botões; centralizo a imagem; pego os óculos (que, a esta hora, estão em algum lugar em mim ou na bolsa) e... lá vem o homem de novo gritando:
 "Coloca flash!".

Eu olhei, muito pau da vida para ele e respondi. "To tentando tirar de todas as formas, cara! Com flash e sem!".
 
Só que, claro, não era comigo que ele falava... Vocês entendem: "artista" é desligado e não presta atenção em nenhum mundo que não seja o dele, né?

Bem, depois de tanta gritaria entre eu e o senhor, assim que todos se entenderam, obviamente o esquilo saiu batido no exato momento da foto. Pelo menos, eu ri muito. O senhor e as filhas é que não devem ter gostado muito...

Saí dali, a seguir, com a nítida impressão de que a garça, os esquilos, os macacos e as plantas soltavam gargalhadas à minha custa. De qualquer forma, senti que serei bem-vinda na próxima tentativa...

Leila Marinho Lage
Rio de Janeiro, setembro de 2007

Para saberem mais sobre o Jardim Botânico, copiem este link: http://www.jbrj.gov.br/historic/index.htm

Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 25/09/2007
Reeditado em 21/02/2009
Código do texto: T667835

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Sobre a autora
Leila Marinho Lage
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 58 anos
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