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MARINALVA

Se ela tivesse outro nome qualquer, ser-me-ia mais fácil descrevê-la, porque eu poderia chamá-la por esse mesmo, que lhe assenta tão bem. Assim, se Marinalva fosse Maria, ser Maria seria a garantia da individualidade preservada, do anonimato protegido, porque eu a chamaria de Marinalva. Mas, de tal maneira o nome Marinalva está irremediavelmente ligado à idéia de Marinalva, seja na realidade ou seja na literatura, que assim sendo, terei que invadir os domínios da sua privacidade. Para amenizar essa invasão, vamos chamá-la de Nalva.
Nalva chegou em casa numa 2ª feira de decretada faxina: tanques e mais tanques de roupas, varais embandeirados, pátios empoeirados, ingratas lidas domésticas.
Não fôra eu quem a contratara... na verdade, nem sei bem quem o fizera. Viera substituindo definitivamente uma diarista que eu tivera durante um bom tempo, elas mesmas se sucedendo umas às outras, se protegendo do desemprego, se filiando clandestinamente a um sindicato informalizado, feito de íntima solidariedade.
Mas eu a notei, assim que a vi. Aliás seria impossível não notá-la: Tinha uma cara redonda e boa, que transbordava em grandes olhos de espanto... e os cabelos, recolhidos num coque importante davam-lhe logo a procedência religiosa: evangélica pentecostal. Antes mesmo de perguntar-lhe o nome – que diga-se de passagem não combinava nada com a imagem – ( e para você não se sentir confuso, tenho que lembrar-lhe que o nome combinava tão somente com a idéia), antes mesmo de indagar-lhe o nome, perguntei a que denominação religiosa pertencia e logo obtive a confirmação de que assim, pentecostalmente vestida, viria para minha casa, todos as 2ªs e 6ªs feiras, mangas e melenas longas e assumidas.
Nalva era crente e às vezes fazia-me sentir descrente com o meu cabelo curto e a minha informalidade vestuária, feita de azuis, brancos e amarelos, enquanto ela era toda cinza.
Por intuição eu sabia que ali havia matéria perfeita para satisfazer minha eterna curiosidade sobre o gênero humano, e que nesse contexto ela se me ofereceria, gratuitamente, como modelo de alma castrada pela religiosidade estéril.
Dividindo o seu mundo do meu mundo, mais que as diferenças sociais, havia sempre uma canção: impregnada por uma santidade que me confundia toda ela interpretava com devoção todos os hinos que conhecia, aumentando cada vez mais a fronteira espaçosa e difícil que existia entre a sua alegria e a nossa tristeza. Porque nós éramos tristes: minha empregada e grande amiga de muitos anos, chamada Clarice, recentemente perdera o pai e eu, há muito tempo, perdera o filho e assim, nessa cascata sinuosa que emenda perdas com perdas, vínhamos gastando nossas tardes em sublime e cultivada amargura.
Mas Nalva cantava. E cantando produzia em nós, no princípio, uma fina e sutil indiferença, que foi evoluindo, aos poucos, sem que nos déssemos conta, para uma mistura de desprezo com implicância: incomodava-nos profundamente a sua presença diligente, amável e... cantante como cigarra alegre entre formigas tristes.
Se nós a ignorávamos ostensivamente, a recíproca, contudo não era verdadeira; Ela se gastava toda em atenção, em gentilezas, em prontidão para nos servir. Fazia o chá da tarde muito mais para nos seduzir do que para matar a nossa fome . E cantava.... como cantava!
Um dia, resolvi protestar contra toda essa alegria. Pedi a ela que respeitasse nossos suspiros, nossos silêncios profundos, nossa dor escancarada. Eu e Clarice estávamos de luto! Ao meu protesto, ela respondeu com um discurso simples, poético e, sobretudo, bíblico. Disse-me que Davi não havia chorado a morte do filho recém nascido durante tanto tempo...que ele se lavara, se vestira, comera e louvara ao Senhor. Respondi que Davi também perdera Absalão e que, nessa ocasião chorara pelos dois filhos. Ou já seriam três? E antes que ela me retrucasse com outra passagem bíblica fiz-lhe uma pergunta direta: “Por acaso você conhece a dor de perder um filho?” Para minha perplexidade, Marinalva, com grandes olhos de espanto, foi até a sua bolsa, revirou seus guardados sobre a mesa e de lá sacou a foto de um jovem quase da mesma idade de meu filho. E sem perdão, tascou implacável: “serve este?”
Marivalva, Clarice, eu, e todos os seres humanos... quem nos livrará da maldição do Éden? Graças a Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo!




Ana Maria Ribas Bernardelli

Marinalva está comigo há 11 anos e hoje ocupa lugar de destaque em minha casa e em nossa família!
Ana Ribas
Enviado por Ana Ribas em 26/09/2007
Reeditado em 08/11/2008
Código do texto: T670073

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Sobre a autora
Ana Ribas
Cruzeiro do Oeste - Paraná - Brasil
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