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Asfixia

Tentou puxar o ar, que não veio. Um calor insuportável, uma coceira inenarrável no pescoço. Alergia. Tosse. Tosse. Tosse. A voz, quase inexistente. O ar que não vinha. Medo. Pela primeira vez, medo... medo de morrer; sem ar. Arriscou ficar calma, pra poupar energia. Pânico. Pânico mais enorme ainda.

Tomou água, tomou banho... procurou água por toda parte. Todos os potes da geladeira, vazios. Olhou no relógio: duas da madrugada. "falta pouco pra começar a trabalhar..." o sol estava vindo; o ar não. E com o sol, mais calor ainda; mais coceira no pescoço. A sensação de pânico foi se apoderando levemente do seu espírito, como se lenta e sarcastigamente algo, dali em diante fosse mudar. Sede. Muita sede, daquelas insuportáveis.... Mais água; menos ar.

Começou a pensar que um planeta sem ar seria inexistente. Teve pena dos seus descendentes, da filha que ainda não tivera, das pessoas que morrem de enfizema pulmonar. Nada pior do que sentir tudo seco por dentro. O ar que não abastecia os pulmões. Mais ventilador, mais  tosse. Toda a poeira do mundo acumulada num quarto de poucos metros quadrados.... Toda a poeira do mundo engastalhada no seu nariz límpido, que não levava ar pros pulmões fatigados.

As costas doeram. A garganta deu sinal de desistência. Fora a falta de ar, o que mais lhe incomodava era o fato de estar condenada ao silêncio. Voz inexistente. Arranhos, apenas; inaudíveis. Não teve a idéia de sair de casa, nem tampouco chamar o SAMU. Sabia que o próximo dia seria fatigante, cansativo, calorento e sem ar. De muito trabalho pela frente. Queria trabalhar... queria.

Ligou pro namorado, que se assustou enormemente com aquela ligação madrugatina. Não a ouviu... tentou deixá-la respirar. Disse "Eu estou aqui, calma..." E foi dizendo palavras de carinho, de medo... sem fazer a mínima idéia do que fosse a sensação de asfixia. Sentiu a respiração mais forçada ainda, a tosse mais intensa, os olhos, como inocentes, lagrimaram. Não podia perder água do corpo, ora essa; não podia!!!! Desligaram.

Então, ao longe, (ou)viu um barulho de vento. Vento, vento, chuva.... Em cidades grandes, morando em casa de quintal, não é permitido abrir as janelas, perigoso demais. Numa tentativa desesperada colocou o nariz entre as frestas da janela, que lhe ameaçavam vida. Se chovesse, fim da tosse. Umidade do ar a 10%, nem deserto... Foi o que disse a meteorologia.

Começou a lutar desesperadamente com a janela, na busca pelo ar, pela chuva, pela vida; que não vieram. Nem ar, nem chuva, nem vida. Morreu de nariz grudado na fresta, sonhando com chuva. Tosse, mais tosse ainda; depois o fim da angústia. E, afinal, asfixia não foi tão ruim assim... Morreu pensando que a chuva viria... que se salvaria da falta de ar, dos pulmões fatigados, que seus descendentes teriam planeta. Tudo em vão... As bolhas tomaram-lhe a garganta, fecharam os restos de ar aturdidos que se aventuraram, em busca de um pulmão distante. Poeira demais nas janelas, mas havia vento....

Tocou-se pela última vez, fechou os olhos e pendeu a cabeça. Quem visse a cena estava certo de que aquela fôra mesmo uma luta feroz; em busca de sobrevivência....

Inês Martins
Enviado por Inês Martins em 28/09/2007
Reeditado em 23/05/2008
Código do texto: T671727

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Sobre a autora
Inês Martins
Goiânia - Goiás - Brasil
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