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É PRIMAVERA.

Neste ano, eu não sei o que fazer com a primavera. As flores e os perfumes que acompanham essa estação do ano, sempre me trouxeram uma perspectiva de renovação, de renascimento, de mistério e de milagre combinados. Os ciclos de vida me atraem, me comovem, me extasiam com as suas possibilidades mágicas. Nada se perde, tudo se transforma. Nessa época, as árvores estão floridas e os pássaros se exibem em cada galho, inclusive na árvore frondosa da frente de casa. Eu os via- a árvore e os pássaros - e os ouvia também , nessa sinfonia combinada, feita de cânticos, tons, cheiros e paisagem. Porque nessa paisagem viva, a árvore que aportou  junto com a gente, que viu meus filhos crescerem, e meus netos chegarem, essa também cantava. Diversas vezes fiquei confusa, prestando atenção às menores vibrações dessa reverberação de gorjeios. Mas, um dia, descobri, que tal qual uma orquestra sinfônica, cada elemento fazia a sua parte. A árvore emitia os graves, e as aves, os agudos. Na natureza, há uma combinação de causa e efeito que se revela do mais simples ao mais complexo. Sem a árvore, não haveria os pássaros, sem os pássaros não haveria a sinfonia de sons: portanto, a árvore cantava. Nesse mistério de faz de conta, que eu criei como verdade só para mim, a minha árvore cantava. E quando se cria uma verdade, ela existe de verdade. Pode não existir para os outros, mas existe para aquele que a criou. Por conta dessa circunstância mágica, sempre que, em horários pré estabelecidos se arranjava a apresentação, mal os primeiros sons começavam, eu me sentava apressadamente na varanda, determinada a não perder nenhum segundo desse espetáculo digno de anjos. Isso acontecia invariavelmente, no fim da tarde, quando as sombras crepusculares traziam a noite, e no início da manhã, quando as primeiras luzes inauguravam mais um dia. Mais tarde, bem mais tarde, quase madrugada, enquanto a casa dormia, eu me sentava de novo na varanda e respeitosamente, repartia com a natureza, o silêncio. O meu silêncio, feito de suspiros inaudíveis.  Eles que agora dormiam, depois de me brindarem com tal sinfonia,  não recebiam  nada além do meu silêncio.
Sempre digo que repartir o silêncio é privilégio de poucos. Quando se tem um amigo, um amigo de verdade, a coisa mais importante a fazer é experimentar repartir o silêncio. Essa é a prova da verdadeira amizade. Uma amizade que passa pelo teste do silêncio, sobrevive para além dos momentos de alegria. Tive uma amiga, uma única amiga, que repartia comigo o silêncio. E tive a árvore da frente de casa, e os pássaros que em seus galhos dormiam . Eles também partilharam o meu silêncio feito de dor, saudades e lágrimas. Como testemunhas mudas, viram-me elevar os olhos para o alto, contar estrelas, e perscrutar a lua, em busca de um sinal do céu. É incrível como na hora da dor mais aguda, o céu pode falar. Mas hoje não quero falar do céu, hoje quero falar da árvore. E da primavera. E do Deus que chamou à existência árvores, aves, eu e a primavera.
Neste ano, com a primavera chegando, eu não sei o que fazer com ela. Quase no final do verão, o Ivo me disse, com voz grave, que a nossa árvore estava condenada. Embora linda e majestosa por fora, por dentro não tinha mais vida. Chorei muito. Chorei até abafar com soluços a voz da moto serra que, furiosa e implacável, rugia lá fora. Foi-se a minha árvore e com ela os meus pássaros. Foram-se os meus amigos e companheiros da madrugada. Foram-se os músicos celestiais que me traziam um pouquinho de alegria a cada anoitecer e a cada amanhecer. Mas não me foi a esperança, a fé e a certeza de que Deus tem cuidado de mim.
No outro dia, recebo a visita de três servas de Deus. Elas aparecem como se não fossem mensageiras do céu. Guardaram asas, por um momento. Com um violão na mão, pedem licença para louvar. O primeiro hino escolhido por elas, é uma passagem bíblica, cuja letra diz o seguinte: "porque há esperança para a árvore, pois mesmo cortada ainda se renovará e não cessarão os seus rebentos, se envelhecer na terra a sua raiz, e no chão morrer o seu tronco, ao cheiro das águas, ao cheiro das águas brotará; e dará ramos, como a planta nova, ao cheiro das águas".
Se Deus cuida das árvores, não cuidará de mim? Ele é fiel: mandou-me o cheiro das águas e me fez brotar de novo. Como a planta nova, os meus ramos estão aí.
Ana Ribas
Enviado por Ana Ribas em 28/09/2007
Reeditado em 08/11/2008
Código do texto: T671785

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Sobre a autora
Ana Ribas
Cruzeiro do Oeste - Paraná - Brasil
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Ana Ribas