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No Caminho dos "Inocentes"


do livro "Impressões, Imersões (ou As Asas da Cobra)"
escrito em 2004.
datado? sim.   escreveria isso hoje? não.
à questão da droga, por exemplo, eu não daria
 hoje um tratamento tão primário, simplista e frio...
mas pode ser interessante.
boa viagem!




     Cobras voando por toda parte é o que vejo. Acho que de todos os ditos populares, 50% são meias-verdades, 30% completamente falsos, 15% perniciosos em sua concepção e apenas 5% refletem alguma verdade. Coisas como "preto quando não caga na entrada, caga na saída", "diga-me com quem andas e eu direi quem és"– estes, preconceitos segregacionistas, maldosos, irracionais e antiquados. Veja só que inocência deste aqui: "Deus não dá asa a cobra"(não tem jeito, estou falando sobre Deus) – pessoas mal intencionadas, astutas e mirabolantes que conseguem sucesso em suas empreitadas de egoísmo exacerbado sem nenhum dano sofrerem por isso, mas que causam danos aos outros, é o que de mais se encontra por aí, em todas as esferas sociais; verdadeiras cobras aladas. Não dá pra endossar tudo que é cultura popular. A massa tem o hábito, diria até, o apetite para a repetição de frases feitas. E há as frases feitas que não tem nada a ver com ditados populares, mas, embora funcionem, verdadeiramente e de forma questionável, quase sempre,  não têm muito a dizer:
Eu te amo.
Me desculpe / Perdão!
Nós temos muita coisa em comum.
Nós não temos nada em comum.
Bom dia!
Sou feliz!
Sou infeliz!
Como vai?(como se as pessoas desejassem, de fato, saber como as outras vão)... Dentre inúmeras outras frases das quais não me recordo neste exato momento em que tento filosofar.

       Palavras usadas para o engano. Palavras usadas para o mal. Freud disse: "a verdade é a mentira que permite à espécie sobreviver". Verdade de Freud. Verdade de Nietzsche. Verdade. Parece às vezes que palavra e verdade são elementos inconciliáveis; ímpares; avessos. "Ah! que medo eu tenho de estar indo longe demais..."

     Mas não sou eu bicho do mato. Sou bicho da palavra mesmo, não tem jeito. E amo a palavra como quem ama o inexplicável. Como quem ama a Deus. Como quem ama o amor e à palavra amor com toda sua tenuidade. Tenuidade que a permite ser translúcida e mágica dentro deste mundo de inconsciências que a todos submete. Amor. Ê palavrinha danada!
     Quem é o amor? Um sábio? Ou um idiota inconsciente? Ou ainda as duas coisas?  Com todas as coisas que as culturas disseram até hoje sobre o amor e seus tipos, acho que aquele amor inconsciente é o melhor tipo de amor: se é que existe outro tipo... Aquele estado de contemplação silenciosa que é mais que uma adoração. Aquilo de observar com alegria uma pequena gota que vai pingar de uma folha. Uma lágrima que vai pingando de um lábio. Uma página de livro que vai recebendo acolhedora aquele respingo e, eternizando-o em sal, perpetua a poderosa poesia da matéria.  Mas a observação é plena em consciência: só o ato de observar; pois o amor dito, está implícito – necessariamente implícito e quase totalmente inconsciente, pois isto é o que há de mais necessário no amor.
     Paixão, não. Paixão é velocidade. Paixão é delícia de masoquismo egoísta. Paixão é dor que se torna forçosamente útil – na utilidade que a vaidade humana inventou. Paixão é tuberculose. Amor é uma gripe branda: não mata e faz-nos sentir que temos um corpo; um corpo para ser cultivado, respeitado, partilhado, explorado, tocado por outro corpo, nutrido de coisas minerais e abstrações pra cabeça.

     Doutor Destino puxou-me a fórceps de tuas entranhas magníficas. Puxou devagar, porém com toda a firmeza que se fazia necessário. Ao sair daquela sala de cirurgia eu caminhei a passos largos e determinados em direção ao não-sei-quê. Uma formiga sobre a Terra, lá fui eu. Na estepe avistei antílopes, lobos e vi também pequenos esquilos. Dos sertões do mundo subi a norte e vaguei com minha culpa pela frieza das tundras. Que saudade do fumo. Aliás dos dois tipos de fumo: do tabaco e da maryjuana. Penso em minha curta relação com a maconha. Foi uma rápida, porém estreita relação. Será mesmo que precisamos destas alquimias: maconha, cocaína, cerveja, Lexotan? Gostaria de conhecer Timothy Leary, ou Aldous Huxley. Mas naquela época em que fizeram suas experiências com o LSD. Eu sei que era uma época romântica e inocente, no que diz respeito à interação química, por exemplo. Mas eu queria ter aquela inocência e poder desfrutar com eles daquelas viagens. É claro que se eu vivesse aquilo; se eu tivesse vivenciado aquilo tudo, iria, acredito, também compartilhar daquela deliciosa inocência. Porque hoje, a questão da droga desmoronou. Ninguém mais é inocente em relação a elas. E todo usuário é cúmplice do lado negativo delas – neste início de terceiro milênio parece que todos estão acordando para isso. O problema é que se consome, mesmo assim, uma quantidade cada vez maior.
     Então, naquela viagem, no meio da tundra, senti minha garganta seca de fumo sem ter fumado. Minha garganta amarga de pó sem ter cheirado. Um gosto de jiló e cerveja. Era saudade. Em um bar, bebera cerveja com uns amigos e comera uns jilós assados com carne, e aquilo me veio à mente, e aquilo me fez sentir aquele prazer arquivado em meus chips. E, de repente, parece que aquele mesmo fórceps me puxava para uma nova luz – diferente daquela claridade quase horizontal da tundra. O chumbo do céu começou a dissipar-se. Gotas ácidas se interpuzeram às visões da nova luz. O que me esperava agora?
     Um quebra-cabeça sob a luz é o que vislumbro. O quebra-cabeça é esta vida indecifrável – entretanto, quebra-cabeças são decifráveis. Tem coisa que é brutal mas é compreensível. Por exemplo, estes jovens que estão morrendo antes de terem tempo de se perguntarem o que é a vida, ou qual a linha reta de se viver de forma interessante sem perder a vida, ou o que vem a ser o amor e a felicidade(estes, os principais objetivos de todos os seres). Muitos morrem envolvidos com drogas, de mortes que estão direta e, na maioria das vezes, indiretamente atreladas à droga. Eu sei o que é isso. É um misto de cultural e orgânico. Seu estigma cultural "adolescentes são rebeldes", e seus hormônios que fazem com que o seu lado animal se sobreponha a tudo o mais(somos todos animais egoístas – egoísmo é de todos os animais – e só vamos deixando este egoísmo original à medida em que vamos nos humanizando). Caetano Veloso acertou: "o homem velho é o rei dos animais". Ser jovem é ser escravo. Mas muitos morrem sem ter tido tempo de humanizar-se um pouco mais.


     Em cacos de desejo prossigo a caminhada que revira meus defuntos e meus espermatozóides. O mar à minha direita. E, dele, uma tempestade parece insurgir-se. É secreta a poesia daquele mar – a mais secreta das poesias. É poema de caos travestido de calma. Aquele mesmo caos universal que organiza, por fim, todas as coisas: o círculo das águas, as hortas, as lesmas, as forças vitais que advém deste nosso sol;    as forças vitais, que ao intelectualizarem-se, chegam até ao papel virgem em forma de códigos legíveis;   as forças vitais de nossos corpos, de nossos quadris, de nossos corpos gigantes, de nossos braços, de nossos clitóris, de nossas páginas que viram após nosso cansativo contato, de nossa verdade. De nossa felicidade.
     Descansei.

     

Luciano Fortunato
Enviado por Luciano Fortunato em 28/09/2007
Reeditado em 28/09/2007
Código do texto: T672081
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Sobre o autor
Luciano Fortunato
Mendes - Rio de Janeiro - Brasil, 47 anos
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