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Talvez

Hoje amanheci eufórico. Sabiás-laranjeira invadiram meu quintal como se procurassem companhia. Tentei imitá-los na ilusão de que pudesse atraí-los para perto de mim. Os queria em meu colo. Intrigado fiquei a persegui-los à distância. Conforme as horas caminhavam o barulho ensurdecedor da cidade foi emudecendo um a um. Acredito piamente que o ruído frenético dos carros, dos celulares e das sirenes, afrontaram suas audições.

Minha euforia demorou pouco. Do fundo da minha alma  acabei embasbacado com tudo: que sabiás eram aqueles? De onde vinha a musicalidade de cada um? De onde veio o meu Eu que ali estava a escutá-los? Que merda! Não tenho resposta para nenhuma destas perguntas. Que coisa absurda! Acho que não sou mais ninguém.

Já nem sei o que é vida e muito menos o que pode vir a ser o canto da morte. Tudo está embaralhado dentro de mim. É como se eu me visse perdido com o curinga nas mãos sem saber o que fazer com ele, é como se eu me visse do outro lado da rua sem conseguir pedir socorro, é como se os meus braços estivessem amarrados em meu corpo.

Às vezes sinto que já estou morto há léguas, que fui enterrado à flor da terra batida e que os urubus estão a espera de que minha carne fique putrefata. Às vezes até rezo, mas minhas orações não têm a força que muitos acreditam ter. Eu não aprendi como se deve fazer o sinal da cruz, eu não tenho fé pública. Ah, como invejo os que ajoelham, os que são batizados, os que acreditam em seus deuses vinte e quatro horas por dia!

Muitas vezes escrevo de medo. Escrevo para que você possa saber da minha vida mesmo após a minha morte e assim, não cometer os mesmos pecados. Isto é muito engraçado, chego a acreditar que sou irracional, algo absurdo! No fundo, se é que posso assim dizer, eu já não existo. A não ser pelos bens materiais que estão registrados temporariamente em meu nome.

O que carrego comigo é uma ameaça constante de sofrimento, mas isto não interessa à mídia, não dá ibope, não vira notícia. Parece que a liberdade me atormenta. Jamais serei um sabiá. Sempre que posso, corto minhas asas. Não quero mais voejar.

Existem vários caminhos para a vida. Escolhi para mim, o ético. Não sei se foi uma boa escolha. Provavelmente este tenha sido o que mais se aproximou ao que o meu pai traçou para ele. Pois, sempre me disse que eu era um bom filho. Eu tenho minhas dúvidas. A única certeza que alimento é que vou morrer, só ainda não sei se será de tédio ou de dor.

Talvez eu queira morrer agora, talvez eu queira ser feliz para sempre, talvez eu seja um medroso, talvez eu seja um sabiá, talvez, talvez, talvez... Que bosta!
Pedro Cardoso DF
Enviado por Pedro Cardoso DF em 28/09/2007
Reeditado em 04/10/2017
Código do texto: T672137
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Pedro Cardoso DF
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 69 anos
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Pedro Cardoso DF