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O Velório

Estava chegando a feira agropecuária do Estado, quando dona Zulmira recebeu em sua casa, vindas do  interior, de Gurupá, dona Maroquita e suas duas filhas Marília e Marina.
Lá na passagem do rio Xingu, residiam quatro pessoas, Além de dona Zulmira, tinha a filha Tatá, o marido Djalma e a sobrinha Euzenir. E justamente naquela  quinta-feira, o senhor da casa estava agonizante, padecia de um mal, que nem o médico sabia explicar.Depois de ter ficado internado uma semana no Hospital Geral, ter enfrentado a falta d’ água no hospital, má alimentação, falta de educação dos servidores e a falta de medicamento voltava para casa, assim como fora, se não pior... Há dias ardia em febre e tossia bastante.
- Entre comadre! A senhora não sabe como é bom lhe ver, o meu marido está, vai não vai, e já não sei o que fazer, mas a senhora sempre será bem vida independente da situação.
-Brigado Zumira.
- Mas vamos entrando ponha as suas coisas lá no quarto, que já está se armando chuva.
Quando a Comadre se agasalhou, perto da boca da noite, o Djalma bateu as botas.
As velhinhas se abraçaram e choraram, as moças choravam, o velho perdia a cor e enrijecia no quarto, a chuva já anunciava a quem interessava, que viria. Relâmpagos e trovões se insurgiam em clarões e estrondos por todo os cantos da casa.
Como dona Zulmira era de Gurupá e não conhecia muita gente por ali, inclusive tinha recém mudado para aquela casa, só contava com as amigas da hora.
A chuva, enfim caiu e as moças vestiram o defunto com uma camisa amarela manga longa, um cinto branco, a calça de linho chinês preta, as meias pretas e o sapato mocacin branco. Em seguida o carregaram para sobre a mesa, no centro da sala, cercaram de velas acesas e entre terços, lágrimas, cafés e partidas de dominós tentavam velar o corpo, uma vez que as funerárias estavam de greve.
Seguindo a chuva a noite amadurecia calada, já não se sabia mais o que fazer, para que o sono não as levassem, foi quando lá pelas duas e meia da manhã, foram surpreendidas com alguém pulando o quintal Colocando todas as roupas numa sacola e adentrando ao seio da casa foi logo dizendo:
- Todo mundo para a parede, é um assalto.
Entre lágrimas de desespero e de saudade o velório foi regrado...Dona Zulmira pedia pelo amor de Deus; Dona Maroquita desmaiava, as moças choravam em coro e acudiam. Mas o menino não queria saber.Estava com o desejo fixo, os olhos vermelhos, as mãos trêmulas armadas e o que mais chamava a atenção era sua idade, aviltada pela sociedade, maquiada pela estatística e violentada pela prudência dos nossos senhores de Brasília.
A contento levou o que pode até o único sapato do defunto, chamou muitos palavrões e pulou o muro, ganhando de volta o seu triste destino.
Enquanto a coisa acontecia na casa do finado Djalma, do outro lado da rua, dona Candinha assistia nervosa, mas conseguiu ligar para a polícia. Duas horas depois, como de costume, quando, enfim a chuva passava, a porta era atropelada pelo jeito educado de um sargento de polícia, seus comandados e dona Candinha, que tomaram um susto ao adentrar a casa de dona Zulmira, vendo ao centro rodeado de mulheres, um corpo, quase despido e sem sapatos.
- Era o falecido!Dizia a dona da casa, que envolvida pela crise de tantas surpresas cedeu espaço para sua filha Marília explicar o que acontecera.
Os policiais meios que sem jeito, diante da situação constrangedora,ainda  olharam pelo quintal, mas não encontraram nada além de um amanhecer de dia entre as folhas das árvores e o canto intermitente dos pássaros. E dona Candinha matou a sua curiosidade exercendo a solidariedade.
No meio de tanta confusão o sargento da polícia conseguiu que uma velha funerária fizesse o enterro, no dia seguinte.
Dona Maroquinha arrumou uma forte dor de cabeça, que a dividiu com a dona Zulmira e por vários dias após o enterro ambas ficaram de cama.
No ínicio da outra semana, foi que dona Maroquinha comentou:
Puxa Zulmira, se eu fosse tu iria embora desta cidade, pois é um desrespeito, até derfunto não escapa do assarto.
- É Maroca, acho que vou mesmo, pois que no meio da confusão de ladrão e polícia, o pior não foi o assarto, mas a cobrança do Djalma.
- O que foi Cumadre! Disse a dona Maroquita.
-Ah! Cumadre, num sabe até...Né que no finar de tantas situações o pobre do Djarma foi enterrado sem sapato.Assim veio ele no meu sonho da noite passada brigar, coisa que em cinquenta e cinco anos de casados nunca ele fez.
-Ah Cumadre!..Num disse, que nessa tar de cidade não dá pra ficar.Onde já se viu derfunto reclamar, ele tá cum sorti, que não lhe levaram as carças.

Alberto Amoêdo
Enviado por Alberto Amoêdo em 28/09/2007
Código do texto: T672488
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Sobre o autor
Alberto Amoêdo
Macapá - Amapá - Brasil, 51 anos
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Alberto Amoêdo