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QUE SAUDADES DO CÉU!


Há dias em que me levanto com uma estranha nostalgia... uma espécie de saudades do céu.  Nesse dia,  o pão com margarina tem sabor de maná... o azul do infinito parece cintilar de forma diferente... o brilho do sol derrama sobre mim uma espécie de energia cósmica... a voz do jornaleiro é o grito de um anjo anunciando o apocalípse já... nesse dia, em especial,  consigo viver ostentando as asas que ainda não tenho... permito-me ser doce, mansa, santa, terna e verdadeira... ouço, olhando nos olhos dos outros,  e deixo que os outros  me ouçam,  até que os meus olhos falem por mim... ando a segunda milha e ofereço a outra face... piso os pés na terra, sem evitar a lama... como a garça passeia pelo pântano sem poluir as penas brancas, eu me permito afundar na lama, e ainda conservar a alva brancura de Deus... uso asas para agasalhar os  que têm frio... removo a pedra da boca do poço e dou água aos famintos... bebo com eles, no mesmo vaso... troco receitas com a mulher samaritana... subo ao monte Moriá com Abraão... ouço a voz de Deus com Moisés... acompanho Davi  e tomo dele a funda... atiro a pedra bem no meio da cara gorda de Golias...desço à casa do oleiro e aprecio o seu trabalho... acho tudo lindo... não tenho nenhum palpite apócrifo a oferecer... singro as águas de mar revolto com o barquinho da fé... atravesso para a outra banda do lago.... gasto meu pãozinho e o meu peixinho para alimentar a multidão... armo tendas para aqueles que ainda não encontraram casa... beijo o mendigo porque meu cheiro e o dele se confundem com o bom perfume de Cristo... falo ao cãozinho sabendo que "toda a criatura geme e chora, aguardando o dia da redenção"... aprecio a noite, porque tenho fé na manhã que vem...sorrio para a morte porque sei que ela não existe, para aqueles que estão em Cristo...  Ah, como me sinto poderosa no dia em que tenho saudades do céu... e, ao sentir tal poder, eu me confundo toda... já não sei se vivo eu, ou se Cristo vive em mim...

Bom seria viver assim para sempre... quando penso que consegui, que alcancei esse estágio privilegiado, essa zona limítrofe entre matéria e espírito,  então,  de repente, não mais que de repente,  como num filme de horror, uma estranha força  me puxa para baixo, para as regiões mais baixas da terra.  A aterrisagem é brusca, mas suave. Não chega a me machucar. Caio de joelhos, rosto no pó.  E então me descubro nua, sem maná, sem o azul do céu, sem o brilho do sol, sem tendas e sem asas. Olho e me vejo,  não como sou, mas como estou... Então entendo, que embora meu espírito esteja pronto para subir, e minha alma tenha saudades do céu, ainda sou um ser da terra...ainda sou feita de carne, sangue e nervos... ainda preciso exercitar a elasticidade do corpo e a plasticidade da alma, que ora exerce os atributos da filiação divina, ora os atributos da natureza humana que grita, berra e esperneia. Essa é a luta de cada dia. Essa é a grande batalha. E nela não há vencidos ou vencedores, apenas peregrinos pedindo passagem para a vida eterna. A vida aqui é um ensaio.  Quando é que será para valer?
Ana Ribas
Enviado por Ana Ribas em 29/09/2007
Código do texto: T673131

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Sobre a autora
Ana Ribas
Cruzeiro do Oeste - Paraná - Brasil
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Ana Ribas