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Travessia

Do fundo do poço da minha alma, nasce um monstro todos os dias. Parecem bois guzerás, seus chifres são espadas que cortam o céu como se fossem navalhas nas mãos de um barbeiro. Seus corpos avantajados me assustam literalmente. Já tentei, de todas as formas, tapar esta cacimba, porém quanto mais tento, mais a alimento. Dizem que são esses monstrengos que nos protegem que, sem eles, nossas vidas seriam mais complicadas do que já são.

Ainda há pouco estava pensando, isto é uma raridade em mim, quando me ponho a meditar fico maluco, tudo me leva a labirintos escuros e sombrios. Cada pensamento me custa algumas horas e às vezes dias de sono. Acredito que, para minha doença, só existe um remédio: a morte das vacas de Presépio.

Veja que coisa complicada: por que você cheira a flor? Por que você não anda pelado? Por que é que você toma remédio? Estes atos são corriqueiros em nossas vidas, os fazemos sem nem ao menos nos perguntar o porquê de tudo isso. Na maioria das vezes fico é rindo de mim mesmo, pois para mim, não existe nada mais bonito do que as flores; nada é mais belo do que o corpo desnudo e, ainda assim, nos vestimos dos pés à cabeça. E os remédios? Por que os tomamos se nem ao menos conseguimos ler suas bulas?

Um certo dia, um dos meus ilustres amigos foi atacado por uma cobra. Quando deparou com os dois furos que ela havia deixado em uma de suas pernas, danou a gritar: “traga uma garrafa de pinga”. Imediatamente lhe deram a bebida. De um só fôlego bebeu todo o líquido. Não satisfeito pediu novamente que lhe trouxessem uma nova garrafa. Sem pestanejar, tomou a segunda garrafa em dois tempos. Não satisfeito pediu outra e mais outras. No último suspiro, sequer sabia o que estava fazendo. Resultado: ficou o resto do dia desacordado. Quando voltou à tona, pensando que estivesse do outro lado do mundo indagou: “será que vou ter que morrer outra vez?” Detalhe: a cobra não era venenosa.

Putz! O meu maior prazer é saber que os bois que criei quando era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones, são os mesmos que hoje “a gente marca, tange, fere, engorda e mata”. Sem eles provavelmente eu seria um psicopata.
Pedro Cardoso DF
Enviado por Pedro Cardoso DF em 29/09/2007
Reeditado em 22/08/2017
Código do texto: T673955
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Pedro Cardoso DF
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 69 anos
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