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A MORTE PODE SER AMIGA.

A MORTE PODE SER AMIGA.

Quando se pensa em todas as coisas pelas quais passamos na vida, chegamos à conclusão de que algumas são boas; outras, ruins. O interessante de tudo, no entanto, é o fato de aquilo que alguns consideram ruim outros acharem bom. Será que o gosto de uns é mais apurado e o de outros, mais simplório? Será que algo parecer bom ou ruim depende apenas do grau de refinamento das preferências individuais? Isso não me parece argumento suficientemente forte para explicar tais diferenças. Penso, por exemplo, na necessidade de trabalhar, nos momentos de solidão, na certeza absoluta da morte. Coisas como essas são vistas de diferentes formas, o que justifica uma reflexão um pouco menos superficial sobre o assunto.
Dentre as ocorrências mais abominadas pela maioria dos seres humanos, a morte parece ser a menos apreciada de todas. Atribuem-lhe até alcunhas tais como “A indesejada”, “O algoz supremo”, “Aquela a quem ninguém engana” e tantas outras. Isso mostra a nossa tendência a fazer uma ligação entre ela e outras experiências também desagradáveis. Não raro, encontram-se pessoas que até se negam a falar sobre a morte, como se, ao mencioná-la, estivessem antecipando sua vinda ou coisa do gênero. Mesmo muitos dos tementes a Deus, teoricamente crentes na bondade e no senso de justiça divinos, vêem a morte com muita reserva – quero dizer desagrado – apesar dos ensinamentos cristãos recebidos.
Eu, particularmente, creio que tudo na vida depende da forma como encaramos os fatos. Se vejo o trabalho como sacrifício, é bem provável que, de fato, ele o seja; se atribuo à solidão o poder de machucar, de deprimir, é bem possível que seja isso mesmo que ela provoque em mim. Tudo tem duas faces: a boa e a ruim. Se vou ter uma vida boa ou passar uma existência tentando escapar do que não gosto, só eu mesmo posso decidir. Posso ver meu trabalho como uma obrigação ou como uma forma de ser útil aos outros, um caminho para deixar marcas da minha efêmera passagem por aqui. De acordo com a minha visão de mundo, talvez eu até consiga ser feliz, seja eu um executivo bem-sucedido ou o funcionário mais humilde de uma empresa.
No caso da morte, fico pensando no longo sofrimento pelo qual já vi tanta gente passar. Lembro também dos tantos que vi chegar a idades incrivelmente avançadas, a ponto de lhes ser difícil até mesmo o movimento mais simples, como segurar um copo de água. Nesses momentos, vem-me à mente que Deus (de qualquer que seja a crença) é sinônimo de sabedoria infinita. Portanto, não seria lógico – se é que se pode falar em lógica nesse caso – imaginar que Ele, como suas criaturas que somos, nos condenasse ao sofrimento, justamente quando já fizemos tudo o que era possível e estamos no fim da linha. Prefiro ver a morte como o abraço do pai após uma longa separação, o beijo mágico da mãe num momento de tristeza, uma espécie de bálsamo para todas as dores. Se virmos a morte como uma aliada, aquela que, ao perceber que chegamos ao limite de nossas forças, dá-nos o abraço que nos libertará, então, talvez, deixemos de tentar evitá-la e descubramos que morrer nem é tão ruim quanto parece.
Imagino a humanidade vivendo eternamente, com suas chagas e suas dores. Talvez fosse o mais cruel dos castigos. É bem possível que, após um longo tempo de suplício, as pessoas sentissem certo prazer, até mesmo, na mais horrível das formas de deixar este mundo. Nesse caso, a teoria de que tudo na vida depende da maneira como encaramos os fatos não parece tão absurda assim. A partir daí, quem sabe, até a morte possa ser vista como amiga.
Everton Falcão
Enviado por Everton Falcão em 01/10/2007
Código do texto: T676070
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Sobre o autor
Everton Falcão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 56 anos
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