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A culpa é do Chico!

Enganam-se os que acham que eu sou do tipo amarrado a obrigações domésticas. O meu prazer em arrumar prateleiras e gavetas tem duas dimensões: uma funcional e a outra, filosófica. Quando o santo do dia é Aristóteles, saio dispondo os objetos segundo uma classificação que espelha minhas idéias de organização do pensamento e do mundo.

Nesses momentos o que me assusta é o sentido de uma frase que li num artigo de revista: quando um homem solteiro ou descasado arruma demais a casa é porque não quer se casar de novo. Organizando o espaço com aquele zelo anteriormente atribuído às mulheres, neutraliza as pretensões de qualquer candidata à rainha do lar. Acredito em parte nessa linha de interpretação, mas não se aplica inteiramente a mim, uma vez que não tenho o hábito de estender a cama ao acordar, e não o faço ao longo do dia. Meu escritório/estúdio também é relativamente bagunçado.

Deduzo disso (ou apenas me iludo) que ainda pretendo me casar novamente. Mas com que tipo de mulher, nessa selva em que mudaram tanto os modos e sinais? Sem perceber, homens e mulheres engendraram feitiços, que se voltaram contra seus feiticeiros: O homem buscava na rua uma mulher diferente da que tinha em casa: mais mundana. Resultado: a mulher de casa se mundanizou e o expulsou de casa, e ele agora se vê rodeado de mundanas, ansiando por uma criatura que o abrigue em algo parecido com o antigo lar. A mulher queria um homem sensível, que a compreendesse, que partilhasse de seu universo de emoções e desejos secretos. Agora vê-se rodeada por homens que descobriram as maravilhas do descompromisso com a virilidade e todas as suas exigências. Ela então procura um "macho de verdade!".

É pra rir ou pra chorar? Escolham.


Enquanto organizo os armários da cozinha, reflito sobre essa minha incomum habilidade para reunir o que é semelhante, e em dispor os utensílios na distância e na altura adequadas, de modo que a vida doméstica não seja aquele sacrifício de que toda mulher reclamava e os homens ignoravam completamente: afinal era muito fácil chegar da pelada de segunda, deixar a roupa e as chuteiras no banheiro e abrir uma cerveja. Foi aí que o Chico Buarque criou aquelas antológicas letras no feminino, fomentou a rebelião da mulherada e conquistou inúmeras delas (ou vocês pensam que ele era fiel à Marieta????).

Não há dúvida, os homens estão pagando pelos pecados de dez mil anos de dominação. Se as mulheres cometem certos exageros, arvorando-se um poder que de fato não têm, isso faz parte de movimento natural numa força emergente, e que ainda não se completou porque é grande o número de sofredoras pelos subúrbios e interior afora. Quando uma parcela significativa das mulheres tiver mostrado suas garras, provado a que vieram, conquistado espaço e o direito a serem "como bem entenderem", aí talvez o jogo comece a se equilibrar novamente. Problema de quem morrer ou se acidentar durante a guerra.

Deus nos deu a liberdade, mas nos fez prisioneiros do nosso tempo!

Quanto a mim, tenho aprendido a viver sem mulher em casa, na expectativa de encontrar uma mulher dos novos tempos com a qual possa haver algum acordo. Já me avisaram que talvez o remédio seja viver em casas separadas, o que pega um pouco no meu lado carente. Como tudo é uma questão de aprendizado, tenho experimentado diversos papéis. Por me sensibilizar com os dramas de cinco irmãs, cedo cerrei fileira na luta pela igualdade e adotei um estilo "homem sensível". Nos últimos tempos, me vi atuando como o macho dominador típico, e com um sucesso que eu jamais prevera. Não se inquietem, isso apenas serve, no teatro pós-moderno, como aquecimento para os prazeres da cama.

Na real, mulher e homem ainda têm um longo caminho pela frente em busca de suas novas identidades e papéis. Enquanto isso, não esqueçamos nossos filhos por aí, sem orientação e amor. Esse será um crime de guerra imperdoável.
Nelson Oliveira
Enviado por Nelson Oliveira em 05/11/2005
Código do texto: T67690
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Sobre o autor
Nelson Oliveira
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 55 anos
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Nelson Oliveira