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                      Sou filha de silicone?

                                  Rosa Pena


Acordei assustada, pois tive um pesadelo. Sonhei que minha mãe era de plástico. Ela não era mais aquela gordinha de cabelos brancos da foto da minha mesinha de cabeceira. Era uma mulher manipulada, inflada de silicone, com bronzeamento artificial, cheia de músculos e sorriso de botox. Não tinha mais aquele jeito no olhar, que acalmava meu coração, não tinha mais aqueles óculos que volta e meia ela perdia, estava com lentes de contato de um azul bem fashion. Pálida, acendi a luz do quarto e da memória, buscando a barriga quentinha dela, onde eu cansei de deitar minha cabeça. Fechei os olhos e o danado voltou. Mamãe tava saradona mesmo. Pra piorar ainda mais minha agonia, eu vi de relance meu papai ao lado dela. Cadê o peito cabeludo de meu progenitor? Ele estava todo depilado, musculoso e lustroso. Será que sou filha da Betty Faria e não sabia? Estranho esse aviso, pois andei pensando em marcar um cirurgião plástico, apesar do medo de virar clone de alguém. Quando vejo a Silvinha, lembro da Joana, que me lembra a Margô, que tá a cara da Janet. Não vou entrar na faca e virar gêmea da minha vizinha. Por mim e pela minha filha. Quero que ela tenha lembranças de mim com culotes e marcas de expressão. Quero que perceba que cada momento meu teve sua emoção. Quero que saiba que fui do tempo em que o Pelé era craque e o Senna campeão, que namorei muito, mas não fiquei com cada saradinho da esquina, que goiabada com queijo era Romeu e Julieta, que cinema era minimotel de amassos, transar não era o primeiro passo, que arrastão era só de peixes e mulher era chamada de peixão, pelas carnes naturais com que Deus lhe premiou. Spa era botar um tamanco na boca, mas só se fosse realmente obesa, daquelas que precisavam emagrecer de fato. Que loja vendia roupa G, sem desmerecer a compradora, com ar de tristeza. Coxa, bunda e peito nunca foram defeitos. Aliás, se são, por que o sucesso da linda Juliana Paes? Não quero ser a irmã de minha filha, quero ser apenas a mãe dela, de preferência bela no que a vida me permitir, mas não mais do que ela. Sou vaidosa, me acabo em hidratantes, adoro meu bronze, dar uma malhada pra ficar uma coroa nos trinques, mas já passou meu tempo de Cinderela. Não quero virar primeiro de abril. Lipoaspiração, esquece o meu bundão.


LIVRO UI!

Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 05/11/2005
Reeditado em 05/12/2009
Código do texto: T67758
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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