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Viagem à nascente do Rio São Francisco

Vou conhecer a nascente do São Francisco. Começo por São Roque de Minas, a entrada da Serra da Canastra, berço do rio. Vejo logo o porquê do nome: as montanhas em forma de uma imensa canastra de couro. Saberei que por mais que ande não verei as anfractuosidades próprias das serras: as montanhas se juntam suavemente, harmoniosamente, sem nenhum conflito. Estamos numa geografia de pedras e pedras, mas sem conflito, o mundo concertado com a beleza deste domicílio do homem. Onde o homem está só de passagem. Para contemplar. Mesmo que seja um morador do lugar.

Somos quatro, o Léo, a Danúbia, a Sônia e eu, guiados pelo José Maria, que nasceu neste chão, e tem pedra e água, e bichos e vegetação nos olhos e na alma. Andamos e andamos, a caminhonete sacolejando na estrada irregular, pedregosa, e são pedras a paisagem que vemos: as cercas de pedras costeando os morros, subindo desgraciosas, tirando graça de sua própria falta de graça. Coitados dos escravos que as ergueram, como cercas naturais, baratas, para conter o gado ali criado. Vemos as cercas de longe em longe, depois mais e mais de perto, até aportarmos num Curral de Pedras. Um cercado de pedras que naturalmente se encaixam, sem cimento, barro ou qualquer outra liga. Depois, se erguem divisórias, para separar os bezerros, para ordenhar as vacas.

Comemos a distância, com a poeira esbranquiçada, pó de pedras, através de um campo amarelado pelo sol, pela seca feia deste tempo seco. Em um mês estará coberto de lírios, brilhando ao sol, explica o guia José Maria. E bem mais à frente veremos um campo de margaridas, que florescerão em novembro. A natureza tem o seu calendário, quando irá vestir-se desta ou daquela beleza. Quando irá mostrar a beleza da sua nudez de pedras. Entre as pedras, resistindo à seca brava deste ano, de qualquer ano, as sempre-vivas. Como o nome diz, estarão sempre vivas. Contra a morte de pedra, eternas. E o mais são pedras, pedras, pedras.

Vejo um casal de gaviões-carcará, soberbos, majestosos, enormes, dominando uma elevação de pedra. Dominando este horizonte, que lhes pertence. É o tempo do acasalamento, e veremos vários casais no caminho, reinando grandiosos, imponentes. São belos. Têm uma beleza que impressiona, impõe respeito, uma espécie de veneração, quase sagrada.

O que não impressiona nada, mas impressiona, é o galito. Um pássaro muito pequeno, difícil de ver, como é difícil de encontrar, raridade. Tem uma particularidade que o distingue de todos os outros pássaros: o rabinho vertical, como o leme de um avião. Os outros pássaros têm o rabo deitado, horizontalmente. Ele, não. É como se fosse o leme, que vira para a direita ou esquerda, manobrando o seu vôo minúsculo. Lindo, com seu colorido dourado e azul e sangüíneo – que sei eu?, mal pude vê-lo. Mas adivinho a sua beleza rara, invulgar e preciosa. Na região há cartazes de “Procura-se vivo!” à cata de informações sobre a localização do pato mergulhão, raríssimo. Pois o galito é mais raro. Deus o conserve.

Passamos pela entrada do Capão Forro, que guarda no nome a origem e dor, a escravidão. Somente nessas brenhas inexpugnáveis a liberdade poderia ser intocada, e hastear as suas bandeiras verdes. O verde das árvores, que se vêem aqui e acolá, além e além mais, nos capões esparsos entre os morros de pedra. E o verde dos coqueiros e das palmeiras. O grito verde das maritacas. Os ninhos secos de guaxo, dependurados num só coqueiro, ao vento, oito, dez, doze ninhos esvoaçantes. Uma montoeira de capim e pêlos de animais, balançando-se no ar, num desequilíbrio que desafia o perigo e permanece. E o vôo negro e vermelho dos guaxos a protegê-los. Os guaxos também são de uma beleza inaudita, no seu vôo furioso, protetor.

Dependurado de uma árvore à beira da estrada, bem maior, um ninho de graveteiro. O nome já diz, graveteiro. Faz o ninho, não de capim, com a aparência de ordem dos outros ninhos, mas de gravetos. Um emaranhado de gravetos, pedaços irregulares de pau, intrincados, numa desordem calculada, que lhe dá estabilidade. Um diferencial: o ninho é a sua casa. Os pássaros fazem ninhos para pôr os ovos, e chocá-los, certo. O graveteiro faz o ninho para morar. Semelhante a ele apenas o joão-de-barro, que também faz a sua casa para morar.

Não vimos nenhum lobo-guará, que não é raro. Mas vimos um tamanduá. Calmo, sossegado, cruzou a frente da caminhonete. Indiferente ao perigo, como se não tivesse nenhum medo, como se nos ignorasse. Ligeiro, porém. Sumiu-se, rápido. Tamanduá-bandeira, grande, os braços pensos, quase arrastando-se no chão. Mais um senhor deste sertão.

Por fim chegamos ao grande senhor, o príncipe infante, a dar os seus primeiros vagidos em seu berço verde. O rio São Francisco. Dois filetes de água que se encontram, vêm formar um riacho, que se vai, deslizando entre as pedras. Chegamos à beira de uma mina, do que poderia ser uma mina comum, empoçada entre a vegetação do cerrado, um olho d’água borbulhando, com seu exército de girinos à flor nadando, fazendo evoluções. Aqui nasce o grande rio. Enorme, descomunal, tem aqui o seu berço privilegiado, aqui geme os seus vagidos de uma dorzinha que encanta, como encantam os bebês, aqui começa a engatinhar, inseguro, não sabendo ainda quão poderoso será.

Dezesseis quilômetros à frente ainda é um riozinho que poderia ser atravessado com poucos passos, que tem um ou outro poço mais fundo, entre as pedras. Um rio pequeno ainda. Mas já com um bom volume de água. Esconde o volume, não se diria que tanta água explodiria na Cachoeira Casca d’Anta. Subimos as pedras da cachoeira, uma encosta íngreme, difícil, que nos fez pôr os bofes de fora, mas não perigosa. Lá embaixo o panorama de montanhas e vales, e o rio entre as pedras, vêem-se as pedras douradas, sob as águas, longe, cada vez mais longe. Sob nós, a cachoeira. Como um pulmão, a cachoeira explode. Como um canhão d’água arrebentando do meio das pedras da montanha. A água projeta-se no ar, e, de repente, cai de uma altura de uns duzentos metros. Nasceu o rio São Francisco.

Um detalhe. O nome Casca d’Anta foi dado ao lugar onde havia uma árvore com excelentes propriedades descobertas graças à anta, que nela vinha se coçar. É de onde o rio se projeta para o mundo. De uma árvore. Tem as suas raízes numa árvore. Que siga o seu destino natural como o destino das árvores, que muitas vezes são mortas pelo homem. Não matemos o rio. Transposição? Que o rio siga o seu curso natural, prodigalizando o dom da vida por onde passa. Salve, São Chico.
José Carlos Brandão
Enviado por José Carlos Brandão em 04/10/2007
Código do texto: T679767

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Sobre o autor
José Carlos Brandão
Bauru - São Paulo - Brasil, 70 anos
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José Carlos Brandão