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M A N G U E I R A

 



“Mangueira teu cenário é uma beleza...” Assim inicia um dos tantos sambas que referenciam (e reverenciam) uma das mais tradicionais favelas do Rio de Janeiro. É de se perguntar: como pode um poeta, ao vislumbrar um cenário de miséria humana, escrever que o mesmo é uma beleza? E acrescenta: “Que a natureza criou...” Todavia, é justamente sob essa ótica que os pensadores liqüidificam seus pensares, transformando-os em letras, palavras, textos. São dos escritores, notadamente dos poetas, essas habilidades criativas. É a arte de ver o não visto, o não sentido, o não imaginável.
A Terra sofre freqüentes abalos, que atingem diretamente os homens, os animais e as demais formas vivas. São erupções vulcânicas, terremotos, enchentes e tsunamis que tais. São as guerras e suas mazelas. São as drogas e as desgraças produzidas em cadeia. É a sonegação de impostos abraçada com a locupletação de verbas públicas, feita por maus gestores. Ainda assim, e apesar disso tudo, ONGs., ligadas à cultura, teimam em publicar livros, a promoverem saraus poéticos, a propiciar o pensar. Por que existe esse contraponto? Será que essas organizações, e outras pessoas isoladamente, ainda não entenderam que é desproporcional suas chamadas, os estímulos ao raciocínio e à consciência, se comparadas com o que as bestas dioturnamente fomentam e induzem? Num momento, em qualquer Segunda-feira, inteiramo-nos das mortes ocorridas no trânsito do fim de semana. No mesmo dia vamos a um sarau poético ou ao lançamento de um livro. Deveria, ou poderia, ser um choque. Mas... essa é a vida! Livre das bestas não ficamos, porém temos a possibilidade da opção.
Tudo isso me faz lembrar de outro verso, igualmente alusivo à Mangueira, num samba divinamente gravado por Elizete Cardoso, que diz assim: “Prá se entender/ tem que se achar/ que a vida não é só isso que se vê/ é um pouco mais”. Ou aquele outro: “Levanta Mangueira/ a poeira do chão”... Se for a poeira da retomada da indignação contra às barbáries, é possível que do ritmo mais brasileiro, o samba; do pensar do poeta que o escreveu (e outros); pela Escola de Samba mais tradicional, a Mangueira, encontremos um norte mais digno para a nossa espécie animal.  “Visto assim do alto/ mais parece um céu no chão”... É, pode ser! Parafraseio o poeta do samba, que conseguiu ver, ou imaginar, as luzes dos barracos da Mangueira como sendo “um céu no chão”, e projeto semelhante imagem aos escritores, em particular poetas, como luzes. As únicas, no plano terreno, com a capacidade de iluminar as mentes. E, mesmo sendo simpatizante da Portela, não me furto a uma reverência à Mangueira: Olha a Mangueira aí, gente!
 
Cláudio Pinto de Sá
Enviado por Cláudio Pinto de Sá em 05/10/2007
Código do texto: T682439
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Sobre o autor
Cláudio Pinto de Sá
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
163 textos (23584 leituras)
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Cláudio Pinto de Sá