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No mundo de Schumann

Um hábito pitorescamente romântico: fugir para o local mais isolado que se possa encontrar e experimentar, voluntariamente, uma solidão dolorosa e necessária. É isso que os românticos, como Dante, Schubert e Lamartine, têm feito desde os tempos mais afastados, como condição para a excelência de suas obras.

Eu tenho um cacoete parecido, triste resultado de anos de convívio entre essas almas infelizes e solitárias. Às vezes, quando anoitece, desço à biblioteca maldita, ascendo uma vela, apago as luzes, sirvo-me uma pequena dose de uma bebida forte, e coloco um vinil de Schumann na vitrola – as "Cenas da Floresta", o "Carnaval", a abertura "Manfredo"…

Vejo Schumann como o maior dos românticos – não só entre os músicos. E digo isso sem nenhum receio. O Romantismo também foi uma moda, cheia de charlatões, falsários e interesseiros de toda espécie. Mas Schumann não é desses; ele é um artista inteligente e profundo. Também não teve preocupação em ser romântico, e o foi em decorrência de seu lirismo, do ambiente artístico em que viveu, de seu refinado gosto por poesia e, acredito eu, de seus distúrbios mentais. “Nada de grande se fez no mundo sem paixão”, dizia Hegel na época; quando Schumann abandonou-se na biblioteca do pai, quando começou a estudar música, quando encantou-se por Clara e a desposou, quando perdeu os movimentos das mãos numa infrutífera tentativa de melhorar sua agilidade ao piano, e quando atirou-se ao Reno, num acesso de loucura, foi aquele apaixonado de quem nos falou Hegel.

Também foi um solitário. Alguns, por mais que façam, serão sempre solitários; é da sua natureza, como uma orelha de abano. Mas note-se que é mais difícil encontrar um solitário do que um orelhudo (mesmo porque este pode se submeter a uma cirurgia plásitca…), como insiste Schopennhauer, ao dizer que “a solidão é a sorte dos espíritos excepcionais”. Realmente, o desejo de solidão ataca poucos.

Paixão e solidão – os sinais mais típicos de um herói romântico.

É claro que a obra de Schumann naturalmente refletia isso. Não sou músico, por isso não posso oferecer uma opinião especializada sobre sua arte. Mas sou um romântico, talvez não tão infeliz e tão brilhante quanto a maioria, mas um romântico dedicado. E me sinto um pouco mais venturoso ouvindo alguma peça desse compositor; suas visões da mulher, seus presságios, seus delírios, seus passeios campestres formam um mundo fantástico que só existiu com Schumann.

Ele descobriu um mundo mais suportável e belo. Basta uma vitrola velha pra descobri-lo também.
Felipe Novais
Enviado por Felipe Novais em 05/10/2007
Reeditado em 03/01/2009
Código do texto: T682517

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Sobre o autor
Felipe Novais
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 31 anos
53 textos (6069 leituras)
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