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TPM

Acordou e o chinelo não estava embaixo da cama. O cachorro comeu. As crianças recusam-se a levantar e só o fazem a custa
de ameaças. Café-da-manhã, começa a primeira briga do dia. Entre mamões e sucos de laranja, consegue fazer com que os dois calcem os sapatos e parte rumo à casa da avó.
O ônibus demora o século de meia hora. Parece que as empresas têm a idéia de que férias escolares são férias coletivas. As crianças resolvem brincar na rua. Melhor que estivessem brigando. Correm,levantam e abaixam de tal modo
que, ao chegarem ao destino, parecerão antes ter estado na guerra.
A avó beija os meninos, que iniciaram nova briga “você e seus irmãos nunca foram assim” e completa ao vê-la gritar para que parassem “não agüento com isso. Não criei vocês com gritaria e surras”,desfiando ainda um rosário de razões, demonstrando ser melhor mãe que ela. A irmã solteira, ressalta que ter um filho assim é bom. “Babá de graça, a tempo e a hora”. Sai antes de perder a cabeça e pular no pescoço dela.
Volta para casa e termina o almoço começado na noite anterior. Só tem uma hora para deixar tudo pronto e ir trabalhar. O cachorro invadiu a cozinha e comeu o restante do café-da-manhã, além de ter espalhado pêlo no tapete da
sala. Limpava a sujeira, lembrando do pai de sua colega que amarrou um no saco e jogou no mato, quando sentiu o cheiro
estranho. O arroz queimou.
Crise de choro. Droga, pôr que não nasceu homem?
Beirando à histeria, saiu de casa novamente. Vai procurar o ex-marido para que ele ficasse com as crianças no final de semana. Precisava tirar folga deles, pelo menos pôr dois dias, coisa que não acontecia desde o nascimento do primeiro, há oito anos. No caminho, um idiota a chama de “gostosa”.
I-DI-O-TA. Gostosa como, estava horrível,despenteada, pêlos de cachorro na roupa e cheirava a arroz queimado, apesar de ter tomado um banho muito rápido. Idiota e cego.
O ex-marido não estava no trabalho. O encontrou no restaurante, arrumadinho como se tivesse acabado de sair do banho, sem uma olheira. Pôs rapidamente os óculos escuros para não denunciar as suas. Ao seu lado, uma mulherzinha
de terceira. Mais uma. Não sabia como ele agüentava tanta mulher. Desde a separação, há dois anos, já o tinha visto com umas 20.
Ficar com os meninos? Não poderia, iria para uma reunião de trabalho, na praia, e era proibido levar filhos. Se tivesse
avisado com antecedência (era quarta-feira), poderia ter feito alguma coisa. Estourou. Falou baixo, mas o suficiente para que ele e a loura oxigenada ouvissem. E despejou tudo que pensava. Saiu, voltou. E jogou na sua cara todos os
prazeres fingidos nos anos de casados.
Chegou ao trabalho atrasada, de novo. A máquina de xerox, com defeito, o ar condicionado só gelava no inverno, todos os homens conversando sobre futebol e fazendo piada de louras. O chefe havia colocado mais 200 relatórios sobre
a mesa para verificar a astronômica diferença de um centavo. Nova crise de choro. Seis horas depois, só havia percorrido 20 folhas e dado pôr falta de quase mil reais. Deixou para outro dia.
Apanhou os filhos, mais brigas, voltou para casa. Pediu um lanche pronto. Enfrentou a maratona dos banhos, a dinastia da TV, os colocou na cama e foi dormir.
Amanhã, começaria tudo de novo, mas certamente, veria com outros olhos.
SUZY
Enviado por SUZY em 07/11/2005
Código do texto: T68399
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Sobre a autora
SUZY
Campos dos Goytacazes - Rio de Janeiro - Brasil
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