Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Mark Twain em Marechal Hermes


Desta vez, sebo de feira livre, um tabuleiro de alguns palmos quadrados botando livro pelo ladrão, torre de papel. Ultrapanglossianos, meus olhos gostam de desafios assim, sempre deparam aquele volume problemático que acompanha o livreiro desde criancinha e que parece vai com ele para o céu, quando soar a grande hora. Já arranquei muita lágrima de gratidão com minhas escolhas estapafúrdias (na visão dos vendedores, claro), sobretudo quando o exemplar escolhido estaria fisicamente melhor numa lixeira do que em minha estante de velharias ilustres. Assim aconteceu por ocasião da compra de um François Villon gallimardiano mais esfarrapado do que o poeta-andarilho, ou do impressionante Logos heraclítico, de Damião Berge, este precisando de reedição crítica à altura de sua importância filosófica. Compre este barulho, moçada.

Mas o livro especial que encontrei hoje na barraca do Joãozinho Traça foi o Twain de Douglas Grant, publicado há quarenta e quatro anos pela editora inglesa Oliver and Boyd Ltd., em sua série Writers and Critics. Não é nenhuma raridade, não chega mesmo a ser um grande texto no gênero, mas contém uma informação bastante curiosa acerca da autobiografia do bem-humorado autor de Tom Sawyer.

Numa carta ao seu amigo de letras W. D. Howells, em junho de 1906, escreve Mark Twain em tom jocoso, praticamente oferecendo aos nossos dias um belo gancho editorial: "Amanhã pretendo compor um capítulo [da autobiografia, que vinha ditando para uma estenógrafa] que levará meus herdeiros e sucessores à fogueira, caso tenham a coragem de publicá-lo antes de 2006 (...). A edição de 2006 será um sucesso, quando aparecer. Estarei por perto, observando, ao lado de outros caras mortos. Você certamente está convidado."

Por sinal, um convidado muito auspicioso, deve ter pensado Howells, sorrindo, pois tinha seus papéis em ordem e sabia que, após sua própria partida deste mundo, se não antes, a carta do amigo ganharia publicidade. Resta saber se os atuais editores norte-americanos ou ingleses estão atentos ao lembrete mark-twainiano. Tomara que sim. Dói o coração imaginar o fantasma de um autor tão generoso desenganado em suas esperanças. 


[12.1.2006]

Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 08/10/2007
Código do texto: T685965

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Luiz Guerra, www.galhodearruda.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 69 anos
166 textos (17318 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/10/17 23:58)
Luiz Guerra