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Um Rolex num país de miseráveis.

Não costumo dar atenção às notícias sobre celebridades da TV. Primeiramente porque não moro no Brasil, e em segundo plano porque de fato quase não assisto TV, (com exceção de eventos esportivos e notícias), e por fim porque acho celebridades de TV pessoas fúteis que nada acrescentam à minha vida. Sei que com essas afirmações terei a antipatia de muitos leitores e que estarei certamente ofendendo algumas dessas celebridades, mas gosto de deixar minha posição bem clara antes de discorrer sobre um determinado tema.

Apesar do meu desinteresse pela TV em geral e principalmente pela brasileira, não pude deixar de ler alguns artigos sobre o tão falado assalto ao Rolex do apresentador da Rede Globo. Tive também a oportunidade de ler o texto que ele mesmo publicou em um jornal de São Paulo e devo dizer que achei o texto dele oportunista e egoísta, mas isso não é o fim do mundo, afinal de contas ele é apenas um ser humano como você e eu, só que com mais dinheiro.

No texto ele dizia se sentir envergonhado por ser paulistano, e se sentia humilhado por um calibre 38. Palavras de impacto, mas que não me causaram comoção alguma. Ao ler o texto do próprio apresentador tive a impressão de que ele durante todos esses anos viveu em um outro planeta. Eu me pergunto onde estava ele quando outras pessoas menos célebres eram arrastadas pelas ruas das nossas cidades, quando crianças recém-nascidas eram jogadas em lagoas, córregos e enterradas vivas nos jardins das periferias. Onde estava a sua indignação a cada aluno que abandonava a escola (e com isso as chances de um futuro menos desumano), por causa dessa mesma violência?

Eu posso até estar enganado, e o autor do texto pode ser uma pessoa extremamente antenada aos problemas sociais do país, mas infelizmente ele escolheu o momento e o modo errado para mostrar a sua indignação. Me pareceu mais um menino mimado que se deparou com uma realidade que ele desconhecia apesar de viver tão perto dela.

Pude seguir também alguns debates sobre a repercussão do texto e vi que inicialmente as opiniões se dividiram em algumas vertentes, a mais interessante delas é a que diz que pessoas ricas também tem o direito de reclamar. É redundante dizer que eu concordo plenamente que pessoas ricas são seres humanos antes de qualquer coisa e que têm sim o direito de se revoltarem diante do atual caos que vivemos no país. Mas acredito também que é preciso um pouco de bom senso entre os nossos novos-ricos, afinal de contas em um país onde ainda temos pessoas sem ter o que comer e onde morar, será que é “politicamente correto” usar um Rolex que custa dezenas de milhares de Reais?

No Brasil não deveríamos expor a nossa riqueza, não apenas por respeito à gritante diferença social, mas também por pura precaução. Eu por exemplo jamais sairia com um Rolex no Brasil, será que estou sendo um ingênuo socialista? Acho que não, pois não peço uma divisão dos bens do apresentador, mas apenas acho desnecessária a ostentação da sua riqueza (ao meu ver desmerecida, mas isso é outro tema.)

Apesar da absoluta falta de segurança pública no país nós brasileiros temos a necessidade genética de mostrar o que possuímos. Chega a ser engraçado ver carros de 500 mil Reais rodando em ruas esburacadas e com crianças famintas nos semáforos limpando seus vidros. Acho que parte da sociedade está se fechando cada vez mais em uma redoma de vidro, nos seus carros blindados, nas suas coberturas longe do fedor das ruas e das balas perdidas, vivendo face a face com a miséria e se tornando de fato insensível à ela. Acordam para o mundo real apenas quando meninos brancos dos bairros ricos das cidades são vítimas do abismo social que nós mesmos ajudamos a criar.

Deixo claro que é dever do governo garantir a segurança e a ordem pública, assim como a educação e a saúde. Mas enquanto isso não acontece, (e nunca acontecerá, pois os filhos dos políticos freqüentam colégios e hospitais particulares), acho que os novos-ricos do Brasil deveriam deixar seus luxos de lado, e desfilar sua riqueza gritante apenas durante suas compras em Miami ou Paris. Não tenho raiva nem inveja dos ricos, apenas acho que eles ostentam demais sua riqueza.

Voltando a falar da TV, eu sempre tive total antipatia por esses programas que exploram a pobreza para ganhar audiência, e com ela fechar contratos publicitários milionários. No programa do apresentador em questão, existe um quadro onde ele dá 10 mil reais à uma família muito pobre, mas isso só depois de expor a sua situação em público, e fazer com que os outros sintam pena desse cidadão. Além de discordar desse modo circense de expor o ser humano, eu sinto uma certa revolta em saber que o relógio roubado muito provavelmente custa bem mais que o tão explorado prêmio do programa da TV.

A maioria da população não tem tempo para pensar que estão sendo exploradas, e acreditam de fato que aquela cadeia de TV, ou aquele apresentador estão fazendo um bem à sociedade, mas na verdade estão apenas fazendo business. Veja bem, não sou contra o capitalismo, nem contra a riqueza de ninguém, apenas me questiono o modo com o qual isso tudo é feito.

A pobreza é um produto como outro qualquer. Uma marca registrada a ser explorada e exposta todas as semanas em dezenas de milhões de aparelhos de TVs. Culpar a cadeia de TV por isso? Quem sou eu; jamais. Eles apenas fazem um negócio, afinal de contas os participantes são livres de expor seu estado de desespero para deleite dos espectadores ao verem que há sempre alguém em pior situação do que eles. É o famoso livre arbítrio; se expõe ao ridículo quem quer. E enriquece com isso, quem pode. Se isso não for verdade, me cite um dono de TV que seja pobre.

Eu apenas acho que quem de fato quer ajudar, contribui de um outro modo menos espetacular, mais anônimo e mais altruísta. Seria moralmente mais correto se os canais de TV deixassem claro que isso é somente um negócio e não beneficência. Queria que publicassem as receitas de cada programa, para que o povo soubesse quanto é que de fato eles faturam, antes de “doarem” dez mil Reais.

Por fim, (embora tenha achado um pouco politizada demais), gostei muito da declaração do policial que diz saber onde está o Rolex, mas que jamais irá arriscar sua vida e seu salário de 600 Reais para recuperar o relógio do apresentador que fatura em um mês o salário de anos de trabalho desse mesmo policial, que a meu ver, contribui muito mais para com a sociedade do que o próprio apresentador, mas isso também é um outro tema.

Enquanto o apresentador espera por um salvador da pátria, eu espero por uma sociedade mais humana, mais consciente das diferenças que ostentamos e que apenas agravam ainda mais a situação. Se cada um de nós abrisse mão de um mínimo do nosso luxo, talvez tivéssemos um pouco mais de paz.  Ilusão? Ilusão por ilusão, prefiro a minha do que a que a TV fabrica com a minha necessidade financeira e psicológica de uma vida melhor.

Vivemos inertes sobre uma bomba-relógio da diferença social e da insegurança, tic...tac, vamos continuar deslumbrados com nossa riqueza esperando passivamente que ela exploda?

...
PS: Não sei se as pessoas se referem a mim, ou ao meu texto,
porém alguns apressadamente e erroneamente levam o debate para um lado que não é o que eu quis dizer.

Eu pensei que fosse redundante dizer que ninguém tem o direito de assaltar ou de tirar a vida de outro ser humano. E que nenhuma diferença social justifica a violência no Brasil, pois há outros países mais pobres com menores taxas de violência.

Entretanto não podemos fazer discursos baseados em sociedades diferentes da nossa, temos que fazer referência ao que vivemos e vemos nas ruas do Brasil, onde infelizmente a diferença social estimula sim parte da violência.

Mesmo que seja injustificada, e mesmo que os governos sejam omissos, e mesmo que muitas outras coisas aconteçam, essa violência existe e mata mais de 40 mil por ano, portanto é nosso dever tentar colaborar para que a diferença social diminua.

E deixar de esbanjar e ostentar é apenas um meio para isso. Pode soar entranho, mas estamos falando do Brasil de hoje e não de um país ideal, onde isso não seria preciso. Mas quem anda com um Rolex no braço está sim "atraindo" o crime para sí.

Ullisses Salles
Ullisses Salles
Enviado por Ullisses Salles em 09/10/2007
Reeditado em 09/10/2007
Código do texto: T686687
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Sobre o autor
Ullisses Salles
Suíça, 41 anos
220 textos (73771 leituras)
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Ullisses Salles