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Estudos sobre a desigualde social brasileira I - Entre o Aquaville e o Pirambu: os extremos da desigualdade social em Fortaleza

                                                             Leonardo Barros Soares

No litoral leste de Fortaleza, a apenas poucos quilômetros de distância de alguns dos bairros mais ricos da cidade, se encontra um dos condomínios fechados mais conhecidos e prestigiados pela alta sociedade da capital, o famigerado Aquaville. O lugar é simplesmente fascinante: uma infinidade de apartamentos confortáveis e luxuosos dispostos harmonicamente em vilas separadas por ruas limpas e arborizadas, cortadas por um córrego artificial povoado por peixes e que pode ser percorrido a bordo de caiaques disponíveis para o aluguel. Piscinas, salão de jogos, restaurantes, sauna e quadras poliesportivas, além de outras comodidades, completam o quadro, tudo devidamente protegido por guaritas de segurança e muros altos.

Muitos quilômetros na direção oposta, no litoral oeste, localiza-se o bairro do Pirambu, um dos bairros com o menor índice de desenvolvimento humano de Fortaleza. As moradias, algumas de alvenaria, outras de papelão e plástico, espalham-se de forma desordenada  por uma extensa faixa litorânea e amontoam-se umas sobre as outras, numa espécie de cortiço gigante e superpovoado.  As ruas estreitas e mal iluminadas se ramificam numa intrincada rede de becos e veredas em sua maioria sem qualquer pavimento ou saneamento básico. Os equipamentos sociais públicos destinados à saúde, educação, segurança e ao lazer são poucos e funcionam, via de regra, em condições precárias.

Nos dois lugares há muitas crianças. No primeiro, as crianças, em sua maioria brancas, louras e até mesmo ruivas (algumas nem sequer falam o português), passeiam alegremente em bicicletas ou em motocicletas elétricas, nadam, jogam tênis e fazem deliciosos pick-nicks nos gramados. No segundo as crianças em sua maioria negras estão desnutridas, infestadas por vermes e muitas vezes não podem sair de casa quando há tiroteios, o que é freqüente, ou quando um estuprador está nas redondezas. No primeiro as crianças têm “mucamas”; no segundo, as “mucamas” têm crianças, um monte delas, que às vezes parecem surgir do chão.

Nos dois lugares há também muitos adultos. No primeiro, senhoras com cútis de pêssego tomam sol enquanto os maridos jogam tênis ou se divertem no bilhar, a babá se ocupa do herdeiro do trono e o garçom prepara o próximo coquetel. No segundo, há muitas mulheres analfabetas e que carregam nas costas uma história de opressão e abuso sexual na infância, espancamentos e abandono no casamento. Em um, os homens fazem Cooper sem camisa para “pegarem um bronze” enquanto discutem transações financeiras em seus celulares de última geração; No outro, os homens colocam suas camisas estampadas com o rosto de algum vereador e vão pescar ou procurar qualquer “bico” que possa ajudá-los a comprar alimentos para sua prole.
Dir-se-ia que ambos os lugares são uma espécie de alucinação, miragens que por ventura houvessem surgido nas areias da praia. O condomínio é mais uma dessas cidadelas pós-modernas destinadas a engendrar um paraíso na terra, um oásis no meio do caos e da pobreza avassaladoras tão comuns em nossas cidades; O Pirambu, por sua vez, assume os ares de uma palestina brasileira, um bolsão de miséria e de violência de tessitura complexa. Um é uma espécie de estufa de plantas ricas e caras que alucinam um mundo sem violência, pobreza e miséria; o outro é uma espécie de descampado selvagem que congrega as mais diversas ervas que resistem às intempéries e aos desafios de sobrevivência cotidianos.

É provável que as pessoas que habitam nestes lugares nem sonhem com a existência uns dos outros. É muito provável também que, no caso de um encontro fortuito entre estes habitantes destas longínquas galáxias, sejam estabelecidas relações hostis que almejem a destruição mútua. Há uma grande probabilidade, inclusive, de que ambos nem se considerem da mesma espécie. Quando há um choque de classes, ou melhor, de mundos, muitas coisas podem acontecer.

Muitos “intelectuais”, ao lerem este texto, dirão, diga-se de passagem, sem nunca ter conhecido o Pirambu (duvido que a maioria não conheça o outro lugar), que eu estou sendo muito radical, que eu estou dicotomizando a realidade, vendo “chifre em cabeça de cavalo” ou ainda que eu estou baseado numa antiga teoria de luta de classes que já está ultrapassada. Dirão que esta técnica de contrastar realidades só faz ressaltar alguns de seus  pontos, talvez os piores de ambas, e deixa de lado muitas coisas importantes .Alguns outros dirão, num suspiro niilista, que não há nada que possamos fazer contra isso, que somos muito pequenos frente ao fascismo cotidiano e ao império das potências instituídas, e que falar sobre isso é kitsch, coisa de intelectual atacado por uma “má consciência” justiceira.

Talvez eles tenham razão em quase tudo. Não há porque dicotomizar a realidade com leituras intelectocêntricas, posto que ela já está estratificada de uma forma bastante rígida para que se tenha a necessidade de endurecê-la ainda mais. Já basta a dureza dos fatos.

Talvez tenham razão também quando criticam a vulgata marxista da luta de classes, pois para mim, o que de fato ocorre não é mais somente um conflito entre “castas” sociais bem delimitadas, mas antes uma colisão entre mundos, um choque entre planetas distintos com habitantes alucinados que são capazes de tudo para protegerem seus ninhos. Desta refrega interplanetária, dessa “coexistência” entre os nômades e os sedentários, os “desfiliados” e os “garantidos”, o que advirá é ainda incerto.

Talvez, e isso sim é difícil de admitir, eles também tenham certa razão quando nos dizem que podemos fazer pouco ou quase nada, que as forças são poderosas demais, que só apagamos incêndios com copos d’água. Quando nos dizem que mudar é quase impossível e que nós não somos mártires. Que um trabalho de formiga é pouco ou quase nada num mundo de gigantes.

Mas, quem sabe, e aqui entra a minha fé (sim, porque sou um homem de fé inabalável na vida), talvez haja uma brecha nesse muro que parece demasiado sólido e inexpugnável. Talvez, ironia do pensamento, possamos nos espelhar nas desventuras de Jó, aquela personagem bíblica que, frente às desmedidas do castigo impingido por Deus a ele, encontrou nas causas de seu sofrimento as razões ocultas de sua paixão pela criação. Ser o nômade kafkiano que encontra as lacunas na Muralha da China.

Eu sei que esta fora de moda falar em utopias de transformação social. Tudo parece sacerdotal demais, ingênuo demais, difícil demais. Eu sei também que parece ridículo falar de transformação social e se limitar somente a escrever textos sobre isso. Mas é só o que eu estou podendo fazer no momento, e assim, a contragosto, me conformo. Todavia, me sinto feliz de estar fazendo pelo menos isso, porque já basta esse gosto de cotidiano, pão velho e osso duro na boca e, mesmo que a caminhada seja árdua, é ela que me leva sempre às novas paisagens. Não quero acordar um dia como um inseto e ter uma carapaça impermeável aos afetos e aos acontecimentos. Não quero me tornar um cínico incorrigível, nem quero acordar um dia e achar que tudo isso é assim mesmo, não tem jeito, é natural.

Porque não é.
Leonardo Soares
Enviado por Leonardo Soares em 09/10/2007
Reeditado em 13/10/2007
Código do texto: T687104
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Leonardo Soares
Fortaleza - Ceará - Brasil, 32 anos
139 textos (41212 leituras)
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Leonardo Soares