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Final Feliz - Dentuço e suas Proezas

Conheço o Dentuço desde a infância. Jogávamos futebol descalços e sapecados pelo sol do campinho de futebol em frente à sua casa. Logo, fomos convocados para o time do bairro e ainda para o time da cidade. Andávamos de carro de rolimã, jogávamos bolas de gude nos pombos e nas vidraças com estilingue, corríamos e brigávamos e nos acertávamos. Crescemos em meio à correria da juventude, pela vontade de ser adulto, de conquistar as mulheres que venerávamos e almejávamos e lastimávamos.
Íamos ao bar do seu Arno, com cruzeiros furados e pés sujos dos chinelos havaianas quase arrebentados. Pedíamos rapaduras, e saíamos abraçados e rindo da infância que passava.
Leandro Dentuço, melhor dizendo, era meu amigo. Meu melhor amigo. Era companheiro dos dias e das noites que ficávamos por aí, só retornando pra casa quando nossas famílias acionavam a polícia local e por pouco não nos anunciávamos como crianças desaparecidas com rostos em anúncios e propagandas beneficentes. Que mico!

Dentuço tinha dois defeitos. Tinha inúmeros, mas vou relatar e narrar e entregar dois. Era feio, e gago. Tinha dentes que pareciam que a qualquer momento iam-lhe saltar pela boca, um rosto quadrado com queixo nada perpendicular ao seu formato, cabelos lambidos e um óculos marrom de lentes grossas e sempre sujas. Dentuço era um sujeito que digamos... seu ponto forte não era a beleza.
Era contador de histórias. Gago. Sua maior paixão era contar piadas e ilusórias histórias de aventuras nunca aventuradas que ele jurava serem suas.
- Vovovo- voovoo ccconntá uma pipipiadda.
Todos riam antes mesmo do começo, mas nunca deixavam o Dentuço contar. Disparavam, inventavam desculpas esfarrapadas e mentiras absurdas para não ouvirem o Dentuço narrar.
Fomos crescendo assim. Aventurando e rindo e balbuciando de tudo e de todos.

Chegamos aos 17 anos, e por incrível que pareça, Dentuço ficou mais feio, e ainda, mais gago. Já não pronunciava nem uma palavra sequer. Nenhuma! Piscava-se e se encolhia e fazia um ronco engraçado da boca.
- rrriiirriiirrii.
Um som meio chiado, que era acompanhado por uma branca saliva que insistia em lhe escorrer do canto da boca.
Seu apelido já não era Leandro Dentuço, como na infância. Agora sua juventude era marcada pelo pseudônimo Ga-gágo. Todos o conheciam assim. Todos!
E foi numa tarde de sábado, de um quente verão de dezembro, onde nós, amigos e conhecidos, sentados no bar do seu Arno, avistamos o Ga-gágo vindo de mão. Isso mesmo! De mão. Agarradinho e pertinho e juntinho da Marcinha, a garota mais linda e assediada do bairro.
E ainda, ao chegar diante da nossa presença Ga-gágo deu um sorriso, uma piscada e falou sem gaguejar:
- Daí gurizada.
Sem gaguejar! Acreditem. Sem gaguejar.
Pasmos e embasbacados ficamos. Olhando enciumados os carinhos de Ga-gágo.

Leandro nunca mais gaguejou, apesar de continuar feio e desajeitado como sempre foi. Casou com Marcinha e felizem viveram. Tiveram duas lindas crianças, que claro, se pareceram com ela.

Mulher bonita não faz milagres, mas ajuda e faz muitas vezes impossíveis e relevantes proezas. Até curar gagueira!
Roger Flores Ceccon
Enviado por Roger Flores Ceccon em 10/10/2007
Código do texto: T689191

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Sobre o autor
Roger Flores Ceccon
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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Roger Flores Ceccon