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O QUE EU QUERIA SABER...



Eu, que nem gosto de televisão, vivo cercada por um continente delas. Há televisão na cozinha, na copa, em cada quarto, até no banheiro. E obviamente, nas salas. 

Minha família é uma família “televisiva”, só eu não gosto de televisão. Aqueles monstros negros, de boca aberta, quase sempre me levam para onde não quero ir: para a tragédia dos outros, eu que já tenho a minha própria tragédia.

Então, fico me esgueirando, de um cômodo para outro. Desconfiada, com grandes olhos de espanto, estou sempre alerta para fugir do recinto, quando o drama começa. Mesmo assim os fragmentos me atingem: são estilhaços de vidros quebrados da tragédia de Santa Catarina, pedaços do barco que afundou no Pará, mugidos de vaquinhas morrendo de sede no Pantanal. Até um restinho da coisa mal cheirosa que o ventilador do Senado espalhou pelo Brasil, respinga em mim.

Não gosto de televisão. Mas sou uma telespectadora de instantes. Algo de magnético me faz compactuar com pequenas frações da notícia – sempre em pé – enquanto passeio de cômodo em cômodo, para me livrar da sensação de incômodo. Às vezes, o que ouço, involuntariamente, me torna petrificada. Então digo de mim para mim: “Bem feito! Quem mandou você assistir?”
 
Então eu, eu que já tenho fartura de emoções incontidas, procuro me convencer de que sou, apenas, um pé de alface: não vou me desgastar, não vou chorar, não vou me indignar. Mas é tarde. Já chorei, já me desgastei, já me indignei: deixei de ser alface para ser eu mesma,eu que lhe odeio tanto, óh televisão,  e acabo por lhe ouvir todos os dias, como se atraída por um canto da sereia. 

Willian Bonner e Fátima Bernardes, até que são simpáticos e empáticos: sempre que a nota é triste, eles choram. Eu percebo que eles choram, você nunca viu? Pois eu já vi...! Mas isso não basta. Como editor chefe, ele deveria anunciar também que, em algum lugar inóspito do país, uma flor exótica e rara floresceu. E a notícia dessa flor, amenizaria a carência do patrimônio sagrado que a televisão nos rouba, um pouco, todos os dias.

Quase não vejo televisão, mas ouço. Ouço porque foi-me dado um ouvido para ouvir, e enquanto me movo por entre a casa, ouço sem nenhum deleite, como quem suporta.

Ler é a minha praia. Leio tudo, até bula de remédio. Leio revistas e elas também vendem tragédias. Mas a tragédia na revista, não provoca o mesmo eco. A tragédia enquadrada na revista tem a prerrogativa de fazer as coisas parecerem passado. Não posso mudar o passado. O passado já passou, já foi fotografado, já viajou até a gráfica, já virou letrinhas negras no papel branco, já passou pela mão do jornaleiro, já viajou léguas até me alcançar. A notícia na revista é triste, mas chega em minha casa velhinha e enrugada, apresentando um determinismo fatalista de algo que não posso mudar. 

A televisão, não: a notícia chega tão quente que vem com cheiro de carne queimada, de ferros retorcidos, de gente pedindo para entrar no céu, no susto da morte, e isso me faz desejar entrar na linha do tempo, e puxar para fora todas as pessoas e todas as coisas que acabaram de se perder. A tragédia na televisão tem cheiro, como o cheiro de um pão que acabou de sair do forno. Só que é um cheiro de morte. 

Eu não gosto de televisão, mas tenho que absorvê-la em doses homeopáticas como um remédio que, em vez de curar, me mata. Eu a tomo, um pouquinho, todos os dias, meio que involuntariamente, por que algum dia se convencionou que é preciso estar informada. Bem informada. Estar informada no dicionário significa estar avisada: preciso estar avisada da miséria, da morte, da imprudência, da corrupção, da agonia do planeta terra. Preciso estar bem informada, ainda que estar bem informada signifique estar mais infeliz, mais quase morta. 

Então, depois da televisão de cada dia, o sono, o sonho, o pesadelo. Placidamente, a casa dorme e eu também devo dormir. Devo deitar-me, esparramar o corpo e a alma entre alvos lençóis brancos, flutuar na vibração do ar, suspirar, e finalmente, dormir. Dormir o sono dos justos. Mas o que eu queria saber, o que eu precisaria entender, o que me apeteceria muitíssimo aprender, é como se dorme com um barulho desses?
Ana Ribas
Enviado por Ana Ribas em 11/10/2007
Reeditado em 11/10/2007
Código do texto: T689619

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Sobre a autora
Ana Ribas
Cruzeiro do Oeste - Paraná - Brasil
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Ana Ribas