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UM OLHAR DE ESPERANÇA

         A figura dos cortadores de cana ocupa, atualmente, manchetes destacadas em grandes jornais, principalmente pelas dificuldades que enfrentam, colocando a saúde e a vida em risco sob o nome de produção. É um assunto delicado, sem dúvida. Em razão dos últimos enfoques observados, fiquei pensando um bom tempo no assunto, revivendo imagens do início dos anos oitenta, quando tive o primeiro contato com a sofrida categoria. Só quem já foi lá, no meio da cana queimada, sabe como é difícil o seu cotidiano! Numa frente de trabalho próximo à cidade de Itapui, no interior do estado, pude sentir e acompanhar, várias vezes, essa triste realidade.
           Foi numa manhã ensorlarada, no início de junho de oitenta e um, pouco depois do início da safra, que tudo aconteceu. Eu fazia parte de um grupo de trabalho que começava a implantar a proteção ao trabalho desse pessoal, com apoio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Jaú. Lá estávamos nós, três fiscais do trabalho - na época a denominação do cargo era essa - e o presidente da entidade sindical. Passava um pouco das dez horas e o pessoal parava para almoçar. Aproximei-me de um homem de uns quarenta anos que abria sua marmita, sentado num monte de cana recém cortada. Perguntei-lhe o nome. Ele abriu um sorriso largo e convidou: "- senta aí, doutor e come com a gente", falou oferecendo a vasilha com muito arroz, um pouco de feijão e ovo frito. "tá frio, mas é limpinho", arrematou, enquanto limpava o garfo nas calças sujas.
           Confesso que a situação era inusitada. Não tinha como aceitar a comida dele, que já era pouco para quem trabalhava duro desde antes das sete, quando eu ainda não havia levantado. Recusar seria uma ofensa. Com jeitinho, disse que aceitava a banana que seria sua sobremesa. Um novo sorriso de satisfação estampou o rosto queimado pelo sol. Sentei-me ao seu lado, em cima do monte de cana cortada. Perguntei-lhe se era difícil o que fazia. O trabalhador, com os dedos enegrecidos pelo carvãozinho, explicou que a dor nas costas era grande, mas que todo o sofrimento fazia parte do seu ganha pão e que era o único que lhe restava. Sem ele, a família passaria fome.
             Contou, ainda, que os dois filhos também estavam por ali, comendo em qualquer um dos eitos, ao lado de outros quase duzentos trabalhadores, transportados por caminhões velhos, totalmente improvisados, sem espaços para as ferramentas. Terminei a banana e aceitei um pouco do seu café. Nesse momento, chegaram os colegas, um deles até hoje grande gozador, disse que, enquanto eles se esforçavam, eu estava ali, sentado na sombra, comendo tranquilamente.
              Estendi a mão para o trabalhador, agradecendo o prazer da companhia. Ele não havia entendido bem o que fazíamos ali. Resumi dizendo que poderia ser o início de um trabalho muito grande, a longo prazo e que poderia reverter um pouco a sua situação, o que, de certa forma, até aconteceu.
              Os anos se passaram. Retornei outras vezes, ao lado dos compenetrados companheiros. Em todas as oportunidades, apesar da situação, sempre encontrei nos trabalhadores "um olhar de esperança..."
PPreto
Enviado por PPreto em 11/10/2007
Código do texto: T690032

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Sobre o autor
PPreto
Jaú - São Paulo - Brasil, 74 anos
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