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Dia e noite da criança
 
Bastava escurecer um pouco que lá no horizonte
ela aparecia todas as noites.
Minha amiga da infância.
Minha amiga de todos as noites.
Meu presente nas noites da criança.
Vezes maior, vezes lânguida, vezes parcial.
Quando era lua cheia então, 
parecia um grande queijo azul a minha lua.
A professora, pensionista de casa, 
dizia que lá morava São Jorge.
Mas, olhando bem, parecia mesmo que tinha 
um homem montado num cavalo e 
espetando um dragão com sua lança.
Aquilo na cabeça de uma criança era fábrica de sonhos.
Anos depois numa noite, tremendo de medo e ansiedade,
assisti pelo chiado e chuviscos da TV preto e branco 
o homem pisar na lua.
Mais emoção que aquela noite, 
só os arrotos que eu soltava 
com os gases da sodinha quente que tomava no aniversário.
E ainda fazia furinho na tampa com um prego, 
pra durar mais.
Coisa linda, minha amiga lua sendo visitada.
Será que os astronautas iriam matar o dragão?
Iriam ajoelhar e rezar pra São Jorge?
Seriam eles corintianos?
Noite toda em claro, preocupado com coisas importantíssimas.
Imaginava os astronautas fazendo xixi lá de cima.
E se fosse cocô então?
Já pensou se cai na minha cabeça?
Eu iria ficar famoso, mas perderia certamente a paixão da Fátima, menina bonita da vizinhança
cujo pai plantava amendoins e a gente ia lá a noite 
olhar a lua, comer amendoim e fazer besteiras.
Amanhã é dia da criança, com videogames, celulares, disneylândia, e mil outras geringonças 
que o dinheiro compra.
Mas, eu já na época de ser avô, ainda vou olhar pro céu.
Vou procurar a lua e torcer para que o 
dragão ainda esteja vivo.
Vou procurar na lua o reflexo do rosto 
do meu amor da criança.
Rogo a Deus que ela ainda viva, para que onde estiver, também possa olhar para o céu e feliz, se lembrar do quanto nós amamos...
...a vida.
Augusto Servano Rodrigues
Enviado por Augusto Servano Rodrigues em 11/10/2007
Código do texto: T690163

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Sobre o autor
Augusto Servano Rodrigues
São Paulo - São Paulo - Brasil, 69 anos
156 textos (50684 leituras)
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Augusto Servano Rodrigues