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Um Final de Semana em Nova Friburgo - Confidências (quase) Íntimas

              Sexta-feira peguei a estrada. Mas antes, habitué que sou, passei no nosso bar para o chope da “happy hour”. Agora, cá entre nós, que hora não é feliz com um chope gelado sobre a mesa e os amigos do lado, falando abobrinhas? Como ser infeliz, ao menos por um minuto, com um cenário como esse que fica de fundo às nossas reuniões no “escritório”, quer seja inverno, primavera, verão ou outono? O Saco de São Francisco... Como ser infeliz diante das meninas passeando pela calçada, da brisa do Atlântico no final do inverno tropical, do visual do Rio de Janeiro com essa topografia exuberante que o homem, sobre o Corcovado, resolveu incrementar com um Cristo Redentor que nos sauda todo o tempo? Eu não preciso me esforçar para ser feliz.
 
              E lá fomos nós, cada um com a sua leve ansiedade, em busca do friozinho da serra e da felicidade de um final de semana com amigos. Vale ressaltar que, na bagagem, além dos engradados de cerveja, da pasta e escova de dentes, da minha “eau de toilette” com notas de madeira, da sunga para um banho de rio, eu levava a alegria que ia buscar por lá.
 
              Não chegamos à mansão dos Benevides tão cedo. Já em Muri, distrito de Nova Friburgo, nosso destino, paramos na estrada para reiniciar os trabalhos. E o que não falta no Bräun & Bräun é cerveja. E acredite, lá é possível: durante parte da noite, estive acompanhado por uma deliciosa mulata alemã! E uma loura! E uma ruiva... Nada de crises de ciúme: só harmonia. Aquilo não é um “Biergarten” e sim um jardim dos sonhos! Canecas para o alto e... Ein Prosit!
 

              Não me critiquem. Acordar tarde não é meu forte. E levantar cedo também não. Eu gosto de ficar na cama, gozando do meu estado semiletargo dos sentidos. Borboleteando mesmo. E fiquei ali, durante pelo menos três quartos de hora, curtindo a boa e companheira ressaca. Ouvindo os sons que entravam pela veneziana da janela e que eu tinha a certeza de que acabariam por excitar-me. Os sons dos pássaros, da cascata do rio que corta a mansão dos Benevides... E o principal: o matraquear sem compromisso dos que cedo acordam. Bem, vou levantar e me integrar porque agora eu quero mesmo é falar besteiras.
 
              Com que lindo dia fui brindado! Os dias estavam acinzentados no litoral. Sem chuva, em uma secura total. Mas na serra não. Lá estamos mais próximos do sol, deve ser isso. Ele brilhava intensamente em um reino de azul ímpar. Juntei-me aos que quaravam para juntos ilustrarmos aquele sábado maravilhoso.
 
              Nesses momentos a gente discute política, mas sem querer interferir nas ideologias. Discutimos futebol, respeitando até os cartolas. Falamos dos vizinhos próximo e distante, mas falamos bem. Apenas concentramo-nos a espera da hora de recomeçarmos os trabalhos, o que não tarda nunca. Nem falha. Porque esses momentos são sagrados e deles não podemos abrir mão. De jeito nenhum.
 
              Sim, usamos protetor solar. Mas é muita onda ficar como um torresminho, com baixo teor de gordura, é claro. A gente não sente falta do mar nesses momentos. Também pudera. Quando saímos de casa, passamos pelo portão, praticamente já fincamos os pés na areia! A gente não sente falta de nada quando vive em harmonia. Quando vive em paz.
 
              Não achamos o abridor. Mas isso pode configurar um problema? A gente improvisa e dá um jeito de abrir a chapinha. Depois de refrescar a goela, piquei a mula. Desci pelos fundos e fui refrescar os neurônios no rio. Nesse nosso grupo, cabe esclarecer, temos uma fox paulistinha bodyboarder. Nikita, xodó do Gil, não se esforça muito para manter-se de pé sobre a prancha. Em pouco tempo, estávamos todos na margem do riacho de água gelada e deliciosa. Então, contemos piadas.
 

              Antes mesmo de subir a serra, eu já imaginava o cabrito que o Gil estava preparando para o almoço do sábado. Quer me fazer rir de orelha a orelha? Prepare um bode. Um cabrito. Um carneiro. Uma vitela. Eu gosto de aves. Até porque a minha primeira infância foi no meio das galinhas. Galinha caipira, carijó, galinhola. Muitas vezes comi frango d'água, caçado pelo meu avó na beira do brejo. Eu já comi galo! Mas nada se compara ao perfume e sabor da carne de um cabritinho.
 
              No fogão a lenha, um feijão carregado cozinhava sem pressa. A panela de barro com o cabrito foi colocada sobre a mesa. Que visão! O cheiro tomou conta do ambiente e senti um leve tremor. Excitação. Desejo. Vontade. Vontade que dá e só passa depois de saciada. Bem, comemos porque era tudo sólido. O feijão, que era quase pastoso, preferi na caneca. E a cerva gelada, líquida e dourada, na tulipa. Acho que está na hora do Gil abrir um restaurante e empregar o Rômulo e o Tatá. Mesmo que seja um negócio pequeno, tipo agricultura de subsistência. Tendeu?
 
              Rômulo preparou um arroz arbóreo. Mas mesmo que fosse um carnaroli ou ainda um vialone nano, o que importa? Mesmo que fosse um agulha! Caldinho de feijão de entrada. Cabrito com arroz como prato principal. Caldinho de feijão como sobremesa. E acompanhando o banquete, cerveja bem gelada. Antes mesmo que a tarde chegasse ao seu final, depois de muita conversa fora, muita comida e muita gargalhada, me joguei na cama para a sesta. A sesta do sábado. Daquele divino sábado. Aleluia.
 

              Ninguém reclama, então creio que posso me gabar. Sou bom de cama. Sou muito bom de cama. Deito, me aninho, sorrio e pego no sono. Essa facilidade para me desligar do mundo eu não tenho para voltar. Lembro-me vagamente do Rômulo me chamando para sair... E eu disse não. Foi resposta automática, como essas que recebemos quando enviamos uma mensagem eletrônica de cuja resposta temos urgência. A resposta vem voando e não esclarece nada. Apenas diz que é automática. Esses meandros tecnológicos estão ficando uma chatice só.
 
              Bem. Não adianta. Se o assunto é sair para uma noitada, não é necessário insistir muito. Na segunda vez que o amigo me chamou, levantei de pronto. Ao sair do quarto, uma cena pitoresca me chamou a atenção. Gil, de pijama, todo esparramado na poltrona do papai, assistia TV. Um dia eu quero uma poltrona daquela. Enorme, aconchegante e motorizada, com todos os comandos remotamente solicitados. O Gil é mesmo uma figura simpática. E sua poltrona muito resistente. Mas vamos deixar de papo furado e partir para a “night”.
 
              Sentamos em um bar que é o “hall” de um pequeno “shopping” cujo mezanino é uma casa noturna. Bebel resolveu não sair e ficou na casa do Mike, fazendo companhia às almas penadas que lá habitam. Frederico foi de “chinelo de dedo” e, na entrada, avisaram que naqueles trajes ele não podia subir. Também, vem lançar moda dos EUA no Brasil antes que o faça a mídia! Parece “demodé”, não sendo aceita pelos vanguardistas locais. Fiquei pasmo de como que pouco mais de uma hora de viagem de carro pode influenciar tanto nos usos e costumes de um povo. A gente muda de cidade e parece que mudamos de país. Quiçá de planeta! Minissaia pode. Bermuda não. Até entendo. Mas barrar as Havaianas?!... Última moda no mundo todo!
 
 
              Vou me permitir voltar um pouco no tempo. Coisa de 45 minutos, uma hora no máximo.
 
              Enquanto tomava banho, me preparando para sair para a noitada, percebi que me sentia, e é somente o que imagino, como uma mulher grávida. Aquele cabrito estava vivo dentro de mim. Não me deixava esquecê-lo. Os gases estavam se acumulando na câmara de combustão, como se estivessem emperradas as quatro válvulas de descarga (isso porque este carro que vos fala tem um motor de 4 cilindros, 4 tempos e oito válvulas – mas um motor flex). Se eu me curvasse para lavar as canelas, me vinha a sensação de que poderia dar a luz ao caprino, pela boca. E foi nesse estado que cheguei ao centro da cidade.
 
              Irreconhecível que estava, pedi uma água com gás ao garçom. Sim. Água com gás e mais nada. Fora de casa, só bebo água se for acompanhada por uísque ou vinho tinto. Mas eu precisava lavar o cabrito que estava dentro de mim. O que acontece é o seguinte. As minhas defesas biológicas devem ter estranhado aquele corpo e lutavam por se livrar dele. Mas eu não queria isso. Aquela carne deliciosa, preparada com tanto carinho pelo Gil, que comi com tanto prazer, tinha que seguir os trâmites normais do meu aparelho digestório. O final do processo tinha que ser, também, um prazer.
 
              Água com gás. Santo remedinho. Eu nunca tinha bebido chope daquela marca mexicana. Só a cerveja. E lembrava da primeira vez. Porque a primeira vez a gente nunca esquece. Tinha sido em uma boate do Jardim Botânico, há uns sete anos atrás, na comemoração do aniversário do amigo Léo. Léo, o fofo. O balofinho. Naquela época, não só a marca, mas também o líquido e a embalagem eram importados.
 
              Pedi a primeira tulipa. A segunda. A terceira... Nunca vi tantas belas nativas juntas no mesmo lugar. As meninas de Friburgo estavam umas gracinhas. E eu me descubro cada vez mais fraco para bebida. Frederico, já no primeiro gole  de “ice”, partiu para o abraço. Levantou-se da nossa mesa, sem aviso, e foi sentar na mesa vizinha, onde estavam um rapaz, com jeito sisudo, e duas meninas. Como  tem rapaz sisudo em Nova Friburgo! Aqui no litoral eles são alegres. Saldo da noite: zero a zero. Já estou me acostumando ao placar. Mas nem liguei. Os amigos, as piadas, as zoações, tudo junto fez a noite muito divertida. E antes de irmos embora, eu e Rômulo ainda subimos para pagar a conta e aproveitamos para dar uma espiadinha no movimento da pista de dança. Não é isso, Bial? Vamos espiar!
 

              Chegamos em casa e fui direto para a cama. Afinal, hoje é domingo e precisamos aproveitar o dia porque segunda bate à porta.
 
              Levantei lá pelas dez e fui direto para a beira do rio desfrutar daquele solzinho morno e daquelas águas estupidamente geladas. Em pouco tempo estávamos todos reunidos. Tatá e Lu dormiram na adega, que tem uma janela voltada para o rio, sendo ninados pelo som do borbulhar da água que caía da cascata. Eles não nos acompanharam na noite passada, tendo bastante tempo para namorar naquele ambiente acolhedor, perfumado de cortiça.
 
              Carolzinha e Dudu partiram cedo. Tinham compromisso na metrópole. Despediram-se e desceram a serra. Carol, a caçula dos Benevides, é um encanto. Além de ser rara. Bonita, inteligente, simpática, carinhosa e vou parar por aqui para não estender demais o capítulo. Ela carrega consigo os predicados dos Benevides. E isso é suficiente para que possamos dizer que é uma excelente pessoa... Excelente. Somente ainda não tive o prazer de experimentar alguma iguaria preparada por ela. Mas creio que não tarda esse dia.
 
              Os trabalhos foram iniciados ali mesmo. Desceram um isopor com algumas louras dentro. Geladinhas. Jogávamos a bolinha de tênis, furada, do outro lado do rio para que Nikita fosse buscar. Ela dava a volta pela represa, evitando a água. Então, jogávamos novamente a bola, agora dentro do rio. E lá ia Nikita molhar as patinhas.
 
              Logo que nossos estômagos começaram a pedir algo que não só líquido, subimos. Novamente estávamos reunidos em torno do fogão e da mesa de sinuca. Selma preparou um arroz bem colorido e Rômulo foi tomar conta da churrasqueira. Logo logo tínhamos o perfume da picanha tomando todo nosso ar. Mas vou confessar. Somente belisquei o churrasco. Novamente, caí dentro do cabrito. Mas fui devagar. Fui com parcimônia. Feijão na caneca, arroz da Selma com cabritinho, mas tudo bem dosado, sem exageros. Eu precisava estar bem para pegar a serra, de volta ao nível do mar.
 

              Depois do almoço, nos espalhamos pela sala para assistir TV. Jogo de quem mesmo?... Não lembro. Peguei no sono. Pegamos no sono. Antes que ele pegasse a gente.
 
              Tatá e Lu partiram antes de nós. Ainda com o dia claro. Quando saímos de Friburgo já passava das 19h. Mas o final de semana ainda não tinha terminado. Como era um ciclo, tínhamos que fechá-lo... Onde? No Nit's. Onde começou, lembra? Fomos para lá. Mas antes passei na casa da Bebel e nossa amiga dorminhoca desembarcou. Desfalcou o time do Nit's naquele domingo.
 
              Então, recomeçarmos os trabalhos. Mas nada de cerveja. Chope. Chope. E chope. Alessandrinha, Rômulo, Bernardo, Gisele e eu. Fechando o fim de semana no escritório. Reencontrando os amigos de bar. Bernardo não bebeu chope porque no Nit’s lei é lei. Menores bebem refri ou um suquinho. Será que o Bernardo já tem mais de três pés de altura?
 
              Chega um. Chega outro. E as meninas desfilando pela calçada. Vira o pescoço pra cá. Vira o pescoço pra lá. Mais um chope. De repente... Quem eu vejo? Aquela loura. Alta. Esguia. Charmosa. Cheia de encantos... Eu vi mesmo ou tenho que suspender a birita?... Deixa pra lá. Essa é outra história. Quem sabe um dia empolgo-me e conto? Quem sabe?
 
              Nossa pilha não acabou. Mas era fim do expediente. E seguimos cada uma para sua casa. Todos com aquela boa sensação do dever cumprido. De termos feito bem uns aos outros. Mas somos egoístas sim. Precisamos nos sentir bem. E foi assim durante todo o final de semana.
 
              É tão fácil ser feliz. Tão simples viver bem. E como são bons os atos simples, as palavras simples, um simples olhar, um simples sorriso, um simples toque, um tapinha nas costas. É. Faz muito bem o aperto de mãos seguido de um abraço com tapas estalados nas costas. A gente precisa respeitar o espaço dos nossos familiares, dos nossos amigos, dos nossos. Respeitar as opiniões, as falhas, os defeitos, as carências, respeitar até a falta de compromisso de uns. E quanto mais respeitamos mais somos por eles respeitados.
 
              É muito fácil ser feliz.
Márcio Ribeiro
Enviado por Márcio Ribeiro em 11/10/2007
Código do texto: T690303
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Sobre o autor
Márcio Ribeiro
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