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                                                    VIDINHA

Naquela casa antiga e mal cuidada, onde o sonho não entra, as horas se arrastam penosamente...A teia de aranha na parede anuncia o desleixo.Dona Cotinha sentada no sofá empoeirado tenta afastar as moscas que não desgrudam do seu prato de mingau esquecido sobre a mesa.São três horas da tarde e o carteiro não veio.Nenhuma visita pra variar.E o cachorro morreu sem um gemido sequer pra quebrar o silêncio.Na janela a cortina desgastada balançando ao vento é um convite ao sono.Aliás, Dona Cotinha o que mais sabe fazer é dormir.E dorme com vontade louca de nunca mais acordar...Cansada de sofrer e de esperar.Muito mais cansada ainda de viver.Isso fica evidente quando anda "arrastando os pés" pelos cômodos da casa e com a tristeza estampada na cara.Foram tantas as amarguras que seu coração ficou fragmentado.O calendário pra ela não tem serventia.Todos os dias são iguais.O jardim está desfeito.E as baratas passeiam na cozinha.Os móveis estão danificados pelo cupim.E as paredes da casa mofadas.Há mofo no quarto e na sala.Mofo até no pão.
A televisão enguiçada virou peça decorativa.E o telefone foi desligado por falta de pagamento.Quanto ao rádio funciona precariamente...
No quintal apenas uma árvore centenária ainda resiste desafiando o tempo.Mas sem oferecer aquela sombra de outrora.O aspecto do quintal é desolador.No passado (quem diria) Dona Cotinha fazia doce de goiaba e de jaca.Plantava verduras e legumes.Colhia flores no jardim.E fazia a festa da garotada distribuindo manga,sapoti,carambola e jabuticaba. Bons tempos aquele!..Uma grande variedade de pássaros enfeitava os galhos das árvores.E o beija-flor toda manhã de modo infalível vinha até a janela deixar o seu beijo... Hoje, viúva e sem filhos,Dona Cotinha sente o sabor amargo da solidão. Não tem parentes.E os amigos se foram...Está idosa e doente.Quem virá pra conversar? Na varanda a cadeira de balanço foi deixada de lado...
Tudo é tristeza.Melancolia.Enquanto a morte não vem ,Dona Cotinha vai levando a sua vidinha...






 
Gladston Salles
Enviado por Gladston Salles em 12/10/2007
Reeditado em 25/09/2017
Código do texto: T691061
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Gladston Salles
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
115 textos (36731 leituras)
2 e-livros (331 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/10/17 00:12)

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