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Voluntariado

           
Em um programa “Café Filosófico” da TV Cultura, a apresentadora falou sobre o paradoxo desta expressão, pois trabalho é para ser remunerado, pagar contas, garantir nossa vida. Mas aquele de um  voluntário?

Ando um tanto distante dele, que já exerci com entusiasmo e me lembro das atividades: reuniões à noitinha, para todo mundo ir, mas sempre faltavam muitos e compareciam os que não vieram na última reunião. Isto a tal rotina, cujo mote era o que  íamos fazer e a parte que cada um prometeu  realizar, que ficava prejudicada devido ao comentário acima... Assim começavam os paradoxos: as atividades realizadas nem sempre eram o que fora planejado, o ideal quero dizer, mas simplesmente o que deu para fazer...

Os objetivos das reuniões também podiam ser resumidos em dois: divulgar a “Causa” e garantir a sustentabilidade... Palavrinha pomposa, significando o caixa vazio, muitas contas em aberto, mais necessidades e a preocupação em tornar a Entidade auto-ustentável!

Mas calma, há bons corações e na última hora alguém vai tirar do bolso, como já aconteceu tantas vezes, para não deixarmos um doente que, na falta de um remédio, possa correr o risco de ir para as calendas ... E os outros pedidos provenientes de fora da Pousada, de transplantados que necessitavam uma cesta básica, passagem para vir ao hospital, e que chegavam na última hora, e a necessidade obriga a pedir... e voluntários a correr!

Deus é grande e o do trabalho voluntário mais ainda, pois não é que no fim do ano, e muito pouco que foi feito correspondendo ao que fora planejado, aparecia uma lista incrível de atividades bem resolvidas? Talvez algum leitor não acredite em Deus, ok, mas então poderá creditar à capacidade de improvisar de brasileiros, sobretudo voluntários, em se dispor a achacar amigos e parentes, aborrecer empresários, com a tal choradeira que muitos conhecem...

E havia também os projetos nos quais a nossa presidente botava tanta fé. Por falar em sua confecção, ninguém iria acreditar se soubesse como foi feito, pois desafiava qualquer manual jamais escrito sobre as regras básicas para trabalho em planejamento!

Não se preocupem, no final conseguimos o encaixe para abrir a Pousada em tempo recorde, reformar a casa e mantê-la há mais de cinco anos! E havia outras atividades que, a bem da verdade, se desenrolavam conforme o planejado: a biblioteca e que mais mais? Não sei, porque eram muitas, e a preocupação em fazer sempre mais deixava o pessoal exigente, tudo que aparecia nossa líder mor queria estar presente, às vezes dois três eventos numa mesma semana!

Ora, poderia alguém argumentar, porque tudo isto? O que move os voluntários a trabalharem assim? Não dá para “organizar”, estabelecer regras e não abraçar o mundo com as pernas, se “profissionalizar”?  O último verbo citado, a meu ver, é chave para entender a questão e creiam, as atividades numa entidade desse tipo podem mudar de uma hora para a outra, pois tudo provem de doação e boa parte do prometido fica pela intenção, que sozinhai não enche panela, mas no momento em que é feito, dá ânimo até que alguém concretize a promessa! Mas é preciso correr, mudar, voltar atrás, ter esquemas na manga e um administrador da esfera privada, ou mesmo pública, geralmente tem idéia do quanto irá despender, ou possivelmente investir, mas o de uma entidade voluntária?

Buscávamos saídas é claro, a tal sustentabilidade e o esforço continuava: almoço, chá, artesanato, envio de pedidos, rifas, festa na rua, desfile de modas, brechó e uma série de formas de pedido de socorro à sociedade porto-alegrense, que a bem da verdade, nunca deixou a Pousada na mão.

O que será, entretanto, que move tantas pessoas na maioria aposentadas, a trabalharem e se preocuparem com a saúde  e sobrevivência dos outros? Confesso que não sei, mas creio que faz parte do lado mais nobre do homem, com H maiúsculo, o fato de que não conseguir viver bem se não puder por a cabeça no travesseiro à noite, pensando: hoje eu fiz algo por meus semelhante e uma criança que vi sorrir, faz parte de meu sonho por um mundo melhor.
Marluiza
Enviado por Marluiza em 12/10/2007
Reeditado em 12/10/2007
Código do texto: T691147
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Sobre a autora
Marluiza
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 73 anos
45 textos (1651 leituras)
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