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Madrugada

Trago no peito a prova de um amor inacabado, recolhi meus resto que jaziam sem vida aos pés dela, e ela me olhou partir com resignação e pena.
Melhor fosse se não amasse, melhor seria se esquecesse, mas, o peito, persisti em bater mesmo quando o adeus persisti em existir. E coexistem, numa melancólica batalha que destrói a alma.
a beleza da solidão só é vista pelos acompanhados, a nobreza da melancolia só é notada pelos alegres, que desapercebidos não notam aquele olhar triste e sombrio de quem já não objetiva um futuro, que já não olha o cume da montanha que esta à escalar.
E olho pela janela do meu quarto carros a luzirem pelas estradas desertas da madrugada, um homem a ser carregado por outros que pensam estar sóbrios o suficiente para carregá-lo. Sirenes acordam o galo que por raiva me acordará quando eu de exausto ser vencido pelo sono. E o pensamento vaga sem rumo enquanto aquele casal que contemplado por mim pensam estarem só. Alcanço as estrelas, e pela primeira vez vejo uma cortar o horizonte e percebo que todos os suicidas têm seu lado belo. Todos saem da vida para entrarem na história, nem que seja história de uma só pessoa para outra, a ferida esta feita no coração, e a cicatriz permanecerá enquanto tudo existir como carne.
Ouço o suspirar de alguém que dorme o cansaço do dia, e vejo que meu cansaço não foi suficiente para abafar o grito da alma e planejo talvez voltar a pé para casa no próximo dia, talvez esteja mais exausto e não ouça o bêbado que canta a esta hora sentado em uma esquina qualquer. Pela sua canção, talvez, se tivesse um quarto, hoje, estaria também a olhar pela janela e ver o cruzeiro do sul, que daqui a pouco se esconderá com a claridade da aurora.
Existo, e somente existo, como que abandonado para morte, como que inutilizado para vida. Ferramenta sem fio, carabina sem munição... Falta-me um pedaço.
A noite torna-se silenciosa, no bar da esquina cessou os risos da saideira, ouço o derradeiro xingamento do homem que suspeita que sua mulher olhara diferente para outro durante a festa.
Som de garrafa a rolar calçada a baixo, o bêbado deve ter pego no sono... O avermelhado que surgi no horizonte, me trás a lembrança do rosado de sua pele, e a visão em meu pensamento faz real o perfume de brisa do mar em seu corpo. E o peito aperta, quando me lembro que mesmo vivendo através de seus olhos nunca sondei seus pensamentos. E por isso fiz fantasia de um sentimento que nunca existiu fora do meu peito.
O primeiro trabalhador chega ao ponto de ônibus. Da janela deste quarto que permanece afogado no escuro, que permanece silencioso.
Mas minha cabeça lateja, minha alma grita enquanto meu espírito jaz sem força em um canto profundo do meu ser.
A indiferença de seus versos sobre meu corpo, aniquilou meu fôlego de vida. E mesmo morto, já tenho que me por de pé.
Edson Duarte
Enviado por Edson Duarte em 12/10/2007
Reeditado em 24/08/2008
Código do texto: T691366
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Edson Duarte
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 33 anos
138 textos (5524 leituras)
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Edson Duarte