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Diários de um madrugador e a fantástica barata das patinhas pontiagudas

                                                              18 de agosto de 2007

Fui ao banheiro escovar meus dentes com o propósito de ir dormir. Já são quase cinco horas da manhã e eu ainda estou aqui, escrevinhando, escrevinhando, tomado pelo estranho sentimento que uma barata me provocou. Era uma barata como qualquer outra, dessas que a gente vê na cozinha, que põe qualquer mulher em estado de pânico sobre o sofá. O que posso dizer, porém, daquelas patinhas pontiagudas que se assemelham a um palito de dente alquebrado, daquele mover incessante de patas, daquelas antenas, daquele dorso?

Foi aí que descobri que sou grato às baratas. Sou grato pelo que elas me comunicam. Sou grato por elas me comunicarem um pavor, uma náusea, um calafrio ancestral que poema nenhum me comunicou. Não sei se é medo o que tenho. Sei que me arrepio todo ao ver uma. Mas por quê? É isso o que quero saber. Até porque - racionalmente dizendo - ela não me é uma ameaça, não é capaz de me devorar, nem ao menos lhe reparo uma boca. O que vejo são antenas e um amontoado de patas pontiagudas perfurando e brotando de seu dorso rugoso. O que vejo é um dorso rugoso revestido de asas sobrepostas. Tudo somado a um abdômen e a uma cabeça insignificante.

Mas ela estava ali, fincada sobre o cano da descarga. Passeou com destreza sobre a alça do papel higiênico, se deslocou bruscamente sobre a pia, voltou-se novamente para a parede, tudo isso em questão de segundos. O silêncio no ambiente era tamanho que pude escutar o tilintar de seus passos. Seus passos que me doíam na alma. Seus passos que me perfuravam como arames. E seus olhos? Seus olhos que me pareciam dois borrões de sombra? Na verdade nem eram seus olhos. São duas manchas que borram seu abdômen, mas que eu por puro capricho insistia e insisto encarar como se fossem seus olhos, mesmo sabendo que não são. É muito esquisita... E isso é bom. Ela me dá um prazer danado que não consigo explicar, me desperta um sentimento danado de estranhamento.

Ela pára. Eu também. Fico desamparado, sem saber o que fazer diante dessa incômoda presença. Só de imaginá-la agora me dá calafrios. Um arrepio que me sobe à flor da pele.

E aquela cor? Não há cor igual na natureza. Alguns, certamente não hesitaram em dizer que é vermelho. Mas a este “realista” estúpido falta perceber o que há de indizível naquela cor. Refiro-me a uma cor que não está em parte alguma, a não ser nela mesma, na barata. Sua cor não se percebe na linguagem. Sua cor não é coisa concebida, é antes coisa opaca, metálica, muda.

Nesse momento indizível em que as palavras me parecem precárias para o que quero exprimir, que era eu diante da barata? Porque ela parava num canto, quieta, como se estivesse me olhando? Instinto de sobrevivência? De repente me flagrei como se estivesse sendo ameaçado. É isso. Talvez seja isso. E cada vez isso me parece mais evidente, tal como um axioma. Descubro que me sentia frágil e ameaçado como se ela quem fosse me esmagar. Como se ela fosse eu, o homem. E eu, a barata. Mas por mais que eu tentasse me aproximar, mais me sentia acuado.

Vendo bem, ela parecia lançar para diante de mim uma espécie de abismo. Tornava-me inseguro na sua presença. Tal como uma criança, tal como um inseto. A barata, por sua vez não é um inseto. Nem um homem. A barata é uma barata. A barata não é qualquer coisa senão ela mesma: uma barata.

Meu deus! Vou dormir. Isso está excitante, prazeroso e divertido. Embora quisesse sentir uma experiência mais desconcertante. Ou pelo menos exprimir com maior sensibilidade, clareza e sinceridade o desconcerto que aquela barata me causou. Além disso, não posso esperar de um homem como eu: arriscadas aventuras no Himalaia ou em plena selva amazônica, longe de casa. Afinal sou urbano, suburbano, urbanóide, insone, amigo da madrugada, pacato pra burro, e não posso na vida de minhas retinas tão fatigadas contemplar aventura maior nem mais fantástica do que essa: a de se deparar com uma barata de patinhas pontiagudas, como qualquer outra, a me assombrar com suas anteninhas no meu banheiro. Esse é o mal de nossa civilização moderna, sobreviver à base de fantásticas aventuras: passear no shopping com a namorada, dar pipoca num jardim zoológico aos macacos, ir ao Maracá e ver o Mengão ganhar ou perder, assistir o capitulo final da novela das oito, se arriscar no mais novo tobogã de Caldas Novas ou, finalmente, ver uma barata pousada na pia do seu banheiro. Quer aventura maior?
 
Nessas horas, sinto-me por demais acomodado nos meus conceitos, na minha razão. Preciso fugir disso. Preciso de doses de loucura de vez em quando. Preciso de cachaça. Preciso ver uma barata. Se possível comer uma barata. Mas não. Não sou suficientemente homem. Ou talvez seja homem demais para entender a verdade do que eu sinto. Sou civilizado demais como todos: e a barata me fez esquecer isso por alguns segundos. Valeu barata. Além do mais, se não fosse você a sujeira deixada por nós nesse mundo seria um pouco maior. Você me humanizou por meio de uma desumanização e vice-e-versa. Entendeu? Tu és louca barata. Tu és louca.

Acho que agora é hora de dormir...

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(esse foi um dia do meu diário que acabou por teimosia se transformando nisso que aí se vê: uma coisa que não sabe se é crônica ou se é diário. Para fugir a duvida, fico no meio termo).
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Alex Canuto de Melo
Enviado por Alex Canuto de Melo em 13/10/2007
Reeditado em 06/12/2008
Código do texto: T692593
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Sobre o autor
Alex Canuto de Melo
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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Alex Canuto de Melo