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OLHA O HOMEM BUCHUDÃO!

                  Recebi o quarto número da revista Preá, no Solar Hélio Galvão, onde à inteligência papa-jerimum se reuniu no dia 18 de dezembro passado, para ver debutar mais 20 Poetas Novos (ou deveria ser novos poetas) agora, definitivamente integrantes, e com certificado e tudo, da cobiçada coleção Luís Carlos Guimarães e da famosa quadrinha de José G. Wanderley:  “Rio Grande do Norte, capital Natal, em cada esquina um poeta, em cada rua um jornal.
                Na capa da revista, uma belíssima fotografia (de Anchieta Xavier) estampava o rosto de uma das tantas “Marias” deste imenso torrão nordestino. Os olhos embaçados, os cabelos ralos, a pele rachada e queimada pelo sol, compunham uma expressão bastante peculiar - a inequívoca mistura da dor e da fé que acompanha ao longo dos anos, os semblantes dos fortes e deserdados sertanejos. Nas mãos, o Cristo crucificado é o símbolo de sua esperança... o seu refrigério. Só não pude perceber na fisionomia do seu rosto, entre os tantos talhes que lhe marcam a face, nenhum em que se abrigasse a vaidade, a mais comum das fraquezas humanas. Ou será que a correntinha de ouro, talvez banhada, ou apenas bijuteria que lhe circunda o pescoço substituindo o tradicional rosário de cordão e bolinhas de plástico, denota algum resquício de vaidade. Quando a Preá chegar em suas mãos, se chegar, olhará para sua foto com a mesma indiferença com que olhou para a câmara do fotógrafo, antes do clic imortalizador dos anônimos? Não tenho uma resposta para isso. Não sei se guardará o exemplar como uma  relíquia ou se o devolverá ao portador dizendo simplesmente que não sabe ler. Mas viremos a página do álbum e vamos à fotografia que motivou esta tentativa de crônica.
                A  frase saiu com a espontaneidade e a inocência inerentes à uma criança de apenas 2 anos e três meses. Em sua voz, uma exclamação de espanto, como se tivesse descoberto algo surpreendente na forma anatômica que a imagem da foto revelava. Foi quando pronunciou em entonação ascendente: Papaaaai! Olha o homem buchuuuuuuudããããoo!
                 Não, não era, caro leitor, o Papai Noel!
                 Eu não me contive, e mesmo antes de olhar a fotografia, caí na gargalhada, pois num instante, fui transportado para a cena do crime, se é que o exercício da vaidade constitui crime. Na varanda do Solar, trocava umas idéias com Racine Santos e Jairo, sobre o concurso de dramaturgia do TAM.  Foi quando chegou Vicente Serejo e sua mulher. Depois de cumprimentar-nos, abriu a Preá, olhou as fotografias da entrevista que concedeu e disse: “O bucho ficou muito grande, mas ainda bem que a foto ficou meio que enviesada”. Rejane esboçou um discreto sorriso. Eu guardei a frase.
             De volta ao quarto, minha filha com o dedinho indicador apontava para foto da página 69. Vislumbrei duas panças, a indisfarsável de Serejo e a de François. Nova gargalhada. Desta vez, seguida da de minha filha, que me imitava. Lembrei da frase que Ricardo Rosado sempre repetia na sala de aula: “Quando dois jornalistas se encontram num elevador, um tem que esperar que o outro suba ou desça, pois o bicho não suporta o peso de suas vaidades”.
            Confesso que fiquei com receio de que o meu ex-professor, especialista em crônicas azuis, me reprovasse a indelicadeza do relato, mas lembrei-me também que aprendi com o mesmo Serejo, em estilos jornalísticos, que o chiste, a piada,  os vícios, o ridículo humano e outras coizinhas mais, é que compõem  as  crônicas do cotidiano, não importa o personagem ou peso de sua vaidade. Então, resolvi correr o risco com esta crônica magra.
Marcos Cavalcanti
Enviado por Marcos Cavalcanti em 13/10/2007
Reeditado em 29/01/2008
Código do texto: T693157

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Sobre o autor
Marcos Cavalcanti
Santa Cruz - Rio Grande do Norte - Brasil, 44 anos
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Marcos Cavalcanti