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UMA CÂMARA SEM CASCUDO


 



                O meu cadastro na Biblioteca Estadual Câmara Cascudo foi feito em 1988, quando vim de Santa Cruz para estudar no colégio Marista. Lembro-me de que era uma biblioteca viva, com um acervo variado e muitos estudantes lendo, pesquisando e fazendo seus trabalhos. Os funcionários se esforçavam para atender-nos e ao mesmo tempo manter o silêncio no local. A biblioteca não era informatizada, mas cumpria o seu papel com relativa eficiência.
                Qual não foi a minha surpresa  ao retornar à biblioteca este mês. Esperava encontrá-la ampliada em seu acervo, com um número maior de funcionários, informatizada, conservada e com muito leitores se servindo dela. A decepção abateu-me e ainda chocado denuncio o que encontrei. A primeira constatação foi a de que o meu cadastro tinha sido defenestrado, pois segundo informou-me um funcionário, a exclusão dos que não renovam a matrícula é feita automaticamente a cada ano.  Com dois reais, identidade, CPF e comprovante de residência, cadastrei-me novamente. Mas para minha tristeza, constrangimento e perplexidade, vi que o acervo que há quinze anos ficava no primeiro andar, junto às mesas de leitura e à mão dos seus freqüentadores, estava agora numa sala estreita do térreo, reduzido em sua maior parte a exemplares velhos, mofados, empoeirados e espremidos entre estantes enferrujadas. Também não existe identificação que indique a área do conhecimento sobre os quais versam os livros lá depositados. Sim, a palavra é esta, pois  a biblioteca não passa de um verdadeiro “depósito desordenado de livros”. É um ambiente morto, medieval e opressor.
                Foi nessa câmara escura, sem ventilação e apertada, que caminhei solitário, examinando os livros e sentindo o cheiro de mofo e a garganta sufocada. Enquanto isso, minha mulher  procurava no fichário de catalogação bibliográfica, “Canto de Muro”, de Cascudo, e voltava de lá decepcionada, pois não havia encontrado a referência desejada. De sua rica bibliografia, apenas duas obras estavam disponíveis. Perguntei ao funcionário onde estavam os livros do mestre da Junqueira Ayres. Ele respondeu que os autores locais ficavam num espaço reservado no primeiro andar, mas já foi adiantando que eles não podiam ser emprestados. Vejam o contra-senso, a maior biblioteca pública do estado,  que por princípio deveria ser a maior divulgadora da literatura local, não o faz, já que os livros dos potiguares estão exilados numa sala, disponíveis apenas para consulta. Assim é também na biblioteca Esmeraldo Siqueira, da Capitania das Artes. Certamente os que ditam as normas dessas bibliotecas esperam que as obras de Cascudo, de Ney Leandro de Castro, de Auta de Souza, de Diógenes da Cunha Lima e de tantos outros autores potiguares  sejam lidas de um fôlego só. A biblioteca é guardiã do conhecimento humano, mas não pode ser egoísta. Daí decorre que uma de suas funções básicas seja a de empréstimo para difusão do conhecimento. A biblioteca não pode ser uma prisão, ao contrário, ela é passaporte para libertação.
                  Por fim perguntei  ao funcionário se a biblioteca vinha adquirindo livros novos, e ele me respondeu que  fazia tempo que o estado não comprava nada, e disse ainda que os que lá entravam eram frutos de alguma doação. Lembrei-me do escândalo dos 20 milhões de reais gastos em livros sem licitação. Nenhum livrinho destinado à biblioteca.
                Não creio que a governadora Vilma de Faria ou que François Silvestre, presidente da Fundação José Augusto, a qual está vinculada à biblioteca, estejam a par da situação acima descrita. Vilma, por ser uma professora, e que portanto, deve saber do valor que uma biblioteca tem para a formação dos que dela se servem, principalmente para os alunos da rede pública de ensino. E François,  por ser um homem culto, escritor e defensor da cultura em todos os âmbitos. Urge pois que seja feito algo para mudar esse quadro lastimável, ou será preciso que o próprio Cascudo, indignado, desça da mão de pedra e com mão de broze venha escrever o seu protesto de ferro.

Marcos Cavalcanti.
Marcos Cavalcanti
Enviado por Marcos Cavalcanti em 13/10/2007
Código do texto: T693179

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Sobre o autor
Marcos Cavalcanti
Santa Cruz - Rio Grande do Norte - Brasil, 44 anos
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Marcos Cavalcanti