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Panorama visto da ponte

Abro a janela e vejo o horizonte, onde a terra acaba e o céu começa. Não sei olhar para perto, quero abarcar todo o universo. Onde a terra acaba são casas, é a cidade que vai até o fim do mundo. Vai e não sabe bem se ali terminou, se continua. São casas esparsas, são amontoados de casas. É o verde por entre as casas, é o verde, sempre o verde. Até onde vai a cidade? Quando não é mais o verde, é o céu azul. É o céu com todas as cores, mesmo que não seja ao crepúsculo. O carmesim, o violeta, os vários tons, melhor, as várias cores do azul.

Agora é hora de sol. Dá-me na cara, cega-me, embaça-me os olhos. Tanto sol, e tanta secura. Seco na pele, na língua, nos olhos, na alma. Dói, arrebenta, quebra, parte-se – a pele, a retina, a sensibilidade. É uma palavra muito delicada, a sensibilidade, e parte-se. Como pétalas de cristal, caídas no piso frio, com um brilho quase de sangue. Meu Deus! A que me levam as palavras, frias, minerais, como as queria o poeta frio e mineral. Ah, poesia. Nem a pedra é fria, tem alma e sangue dentro.

Ergo os olhos e vejo a fumaça, cheiro a fumaça – gosta de queimar, esse povo. Queimaria as fuças, se pudesse. Queimam o próprio rabo, que não vêem. Deleito-me xingando a populaça, como se resolvesse. Melhor xingar o governo, os empresários, que também são governo. Queimamos o ar que respiramos, nós, povo simples, e a elite da tropa do governo.
Pois é, também eu falei no filme que está dando o que falar e no fim vai ficar nisso aí mesmo: palavras. Não são as palavras que movem o mundo? Movem o moinho, a mó que tritura e abençoa a vida? Em frente, senhores, um dia depois do outro, pedra sobre pedra, e o cimento da saliva – é preciso muita saliva para dar liga ao pó do mundo.

Ouço os passarinhos cantando, suaves. Ainda posso ouvir os passarinhos apesar dos motores roncando doidos nos meus ouvidos. Lembro-me de quando eu estava doente no hospital, entre a vida e a morte, numa agonia dos diabos, e os motores roncavam a noite toda, ônibus, caminhões, tratores, motos, carros... Eram tratores moendo a noite, moendo a minha alma. Eu nem me lembrava de morrer.

Ouço um cachorro perdido. Deve ser um cachorro perdido. Ganindo solitário, baixinho – é baixinho o ganido que eu ouço, desconsolado só. Chego a imaginá-lo sob uma marquise, sob o viaduto lá longe, inaudível aos meus ouvidos moucos. Loucos, eu o estou ouvindo. Mexe a perna esquerda com dificuldade, a anquinha ferida, tenta se aconchegar num canto, entre o cimento duro e duas pontas de ferro retorcido. E um galo canta. Como se fosse hora de tecer a manhã, essa dura, férrea aurora dos homens.

Falei no hospital. Preciso falar desse monstrengo desconjuntado à minha frente, feio, horroroso... Horroroso é palavra muito feia, mas bonito o monstro cinza, sem cor, sem pintura nenhuma, com as janelas de um verde desbotado querendo ser sinônimo de cor, bonito não é. As visitas dizem: Que bonito! Me perdoe, meu amigo, meu irmão, mas que falta de gosto! Esses três blocos irregulares, com cara de nada. O telhado sujo – sim, eu estou aqui do alto e estou vendo o telhado sujo. Ninguém se importa com o telhado, é invisível, somente os pássaros, os anjos e os aviões passam lá por cima, e esses não se importam? Os pássaros e anjos se importam, e quanto! Têm bom gosto, viram a face de Deus e, por isso, têm alma de poeta. Quem anda de avião não tem tempo para a beleza – ou a feiúra. Estão muito ocupados em não morrer. Viram a terra já de muito alto – sim, tiveram tempo para a beleza – e não querem voltar os olhos para a mesquinharia aqui de baixo.

Mas o hospital é feio. E é um hospital, lugar de morrer. Ninguém pensa num hospital com um lugar onde se está vivendo, ao menos se tratando para viver mais e melhor. Deveria, mas no hospital se morre. Eu já morri três ou quatro vezes num hospital, em nenhuma foi uma doença grave, mas eu morri. Botei sangue pela boca, botei o cérebro num a bandeja e a língua no escarrador. São metáforas, mas são imagens do que se faz no hospital. Depois me digam se isso não é morrer. Quem não passou por isso, passou pela vida em brancas nuvens como no poema, e não viveu, não naquele lugar, que é onde se morre.

Credo! Virei tétrico outra vez. E eu ia falar sobre a vida – mas que é a vida? Porque muito amamos a vida, falamos da morte. Para ressaltar a importância da vida, lembramos que ela acaba. A vida é bela, a vida é bela, isso nem seria preciso dizer. As crianças estão na piscina, abaixo da minha janela, falam e gritam e riem, riem como se a vida fosse um palco iluminado – a piscina de água azul, o sol no céu azul, e nada mais importa no mundo. E eu estou escrevendo porque estou escrevendo. Para dizer: a vida é bela. Não apesar da morte, mas porque é a vida. A vida é bela porque a vida é bela. As dores, as desgraças, a miséria e, enfim, a morte, tudo me diz que a vida é bela.

Outro dia termino o que eu pretendia dizer, se é que eu pretendia dizer alguma coisa. Hoje, disse tudo. A vida é bela, ponto final.
José Carlos Brandão
Enviado por José Carlos Brandão em 13/10/2007
Código do texto: T693290

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Sobre o autor
José Carlos Brandão
Bauru - São Paulo - Brasil, 70 anos
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José Carlos Brandão