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PRATOS DO DIA: SARGENTO SANDUBA E TROPA DE ELITE

Hoje se comemora o “Dias das Crianças”, que é uma data que trás muitas felicidades aos pequenos e  faz com que os pais dêem mais atenção aos seus pimpolhos, além de satisfazer plenamente os interesses do comércio. Em todos os parques se encontrarão hoje os pais separados curtindo as brincadeiras  de seus rebentos, bem assim como os casais se deliciando com a alegria dos filhos. Estou em Teresina, no Piauí, perto de dois dos meus filhos, mas minhas pequenas filhas estão em Garanhuns. Aqui, um calorão. O computador do carro marcava, por volta das 15:00hs, 40 graus. Lá, nas alturas do agreste meridional de Pernambuco, certamente a temperatura deve estar por volta de 23  graus, havendo uma tendência segura de beirar a marca dos 19 graus, quando cair a noite, esfriando mais ainda durante a madrugada.

Apesar da data, estou à frente do computador para comentar uma notícia inusitada que acabo de ler na edição de hoje da Folha de São Paulo.
Comecemos pelo título da notícia, que ocupa um pequenino espaço no canto direito do final da página C3 (caderno Cotidiano):”PRATO DO DIA – Lanche com nome militar rende prisão”. O fato que virou notícia aconteceu com o proprietário de uma pequena lanchonete da cidade histórica de PENEDO, situada às margens do Rio São Francisco, na região conhecida pelo nome de “Baixo São Francisco”e que é uma das cidades históricas mais bonitas do Brasil e com a qual mantenho uma relação de amor já antiga e que se estreitou mais neste ano por conta das pequisas que faço sobre o período colonial brasileiro no acervo da Biblioteca da magnifica FUNDAÇÃO CASA DO PENEDO. Pois é, o cidadão identificado como  ALBERTO LIRA, de 38 anos de idade, foi detido e levado  à Delegacia de Polícia porque o comandante da Polícia Militar considerou como uma ofensa à corporação militar o fato de haver no cardápio um sanduíche com o nome de “SARGENTO”. Isso mesmo: SARGENTO. Por conta disto o infeliz homem foi detido e sua sorte é que sua atitude deve ter sido enquadrada como sendo crime de menor potencial ofensivo e, nestes casos, não comporta prisão, lavrando-se apenas um simples TCO (Termo Circunstanciado de Ocorrências), no qual o autor do fato se compromete a comparecer à Justiça quando intimado, oportunidade em que lhe será dado o direito de receber o benefício da suspensão do processo mediante o pagamento de uma prestação pecuniária ou prestar serviços à comunidade, se o caso for para frente. Daqui, de onde estou, num  quarto de hotel, bem no centro de Teresina, fico pensando na polêmica que essa prisão levantou na bela e pacata Penedo. Nas conversas dos bares, das calçadas, dos barqueiros do rio e nas escolas, certamente, o assunto deve ter provocado  boas discussões. Dentro do Batalhão o assunto deve estar sendo tratado de forma reservada, como é de costume. Os programas de rádio devem ter feito as famosas pesquisas instantâneas de opinião, perguntando aos ouvintes se concordam, ou não, com a adoção de patentes militares para denominar os sandubas. As minhas queridas amigas ANA MARIA RIBEIRO, CLÁUDIA e LÚCIA PRATA certamente não se esquivaram de emitir suas opiniões, afinal são mulheres participativas da vida cultural daquela cidade. Será que o SALES, o prestigiado psiquiatra penedense que toca a vida profissional em Brasília e idealizou e comanda a FUNDAÇÃO CASA DO PENEDO, ficou sabendo deste imbróglio? Se ficou, deve ter dado boas gargalhadas. Esse episódio é pitoresco e, infelizmente, diminui o conceito da polícia perante a população. Penedo não é uma cidade violenta, mas tem problemas na área da segurança pública, como a maioria das cidades médias e grandes do país. A insegurança e a impunidade são apontadas como um dos maiores problemas da nossa sociedade, mesmo assim, muitas pessoas que têm responsabilidade no assunto, ao invés de se preocuparem na solução dos problemas, se dedicam a coisas prosaicas como esta noticiada na FSP. Mas a polícia de Penedo não está sozinha, neste quesito de trivialidades. É que no Rio de Janeiro, depois do sucesso da cópia pirata do filme TROPA DE ELITE – vou assistir no cinema -, soube que o comandante da PM intimou os diretores e atores para que digam se algum militar participou do filme, e, em caso positivo, haverá punição, vez que tal comportamento é vedado pelo regimento da corporação. Em ambos os casos, perdem o precioso tempo as autoridades, o que é uma pena. Mas, neste país (não, não é uma evocação ao grande líder que repete  a expressão a todo instante para lembrar que antes dele, não havia nada), as autoridades públicas gostam de atitudes dessa natureza, daí ter razão o humorista JOSÉ SIMÃO, quando diz que aqui é o   “país da piada pronta”, ou seja, o fato em si já é uma piada. Este de Penedo, então, é uma piada e das boas: “Teje preso”. Porquê: por conta do cardápio. E olhe que somente tinha a patente de sargento, imagina se o homem da lanchonete tivesse colocado os oficiais superiores: Capitão, Major e Coronel?
Sei que, além dos meus poucos  leitores, ninguém mais lerá esta crônica, mas se tivesse oportunidade, aconselharia os comandantes para que dessem mais atenção aos planos de segurança e deixassem os cardápios das lanchonetes e os diretores do filme em paz.
Quanto ao filme, dizem que é muito bom. Clarice, minha filha, assistiu e passou o dia brincando com um refrão muito utilizado pelos militares do filme, uma coisa do tipo: “tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você”. É, espero que a polícia não  “pegue” o cidadão indefeso, o trabalhador, o bêbado e os adolescentes, simplesmente porque estão nas áreas de riscos e têm aparências suspeitas.
Vamos lá, peguem os ladrões e traficantes e devolvam a nossa paz e esqueçam os sanduíches com nomes militares, porque isto não representa nada e não denigre a imagem da tropa.

Teresina, 10/10/07

Augusto N. Sampaio Angelim
Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 16/10/2007
Reeditado em 15/03/2008
Código do texto: T696309

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Sobre o autor
Augusto Sampaio Angelim
São Bento do Una - Pernambuco - Brasil, 55 anos
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Augusto Sampaio Angelim