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Os fugitivos

Prólogo: após sonho dantesco, onde me encontrava em fuga de um presídio de segurança máxima, resolvi exteriorizar os sentimentos de quem sonha por uma liberdade merecida e justa, embora não legal.

Adormeci com fome, mas outrora chorei pelos que estavam famintos.
Perseguem-me! Ninguém chora por mim. Os que se aqueciam com o calor do meu corpo também me agasalhavam. Éramos sete. Um amontoado de miseráveis e esquálidas criaturas medrosas, feias, em busca de uma liberdade sonhada.

Os pés de alguns de nós eram chagas, representação da desgraça e infortúnio. Eu era o mais velho do grupo, com 87 anos, arquejava sob o peso de janeiros. O mais jovem dos fugitivos contava 27 anos, mas não era o mais forte. Houve vezes em que pensou em desistir e até tentou aliciar-me nessa empreitada.

Resisti à desistência porque aprendi que o medo está por trás do fracasso, da doença e das relações humanas desagradáveis.

Milhões de pessoas têm medo do passado, do futuro, da velhice, da loucura e da morte. O medo é um pensamento que cresce na mente dos indisciplinados e eu não queria ter medo dos meus próprios pensamentos, dos meus infortúnios, dos meus medos.

Os latidos dos cães ferozes, treinados para matar, eram ouvidos a distância. Causavam arrepios de medo quando imaginávamos nosso cruel castigo caso fossemos pegos e reconduzidos às salas fétidas de tortura das forças repressoras.

Todos sabem que o medo é uma reação protetora e saudável do ser humano. O medo "normal" vem de estímulos reais de ameaça à vida. A cada situação nova, inesperada, que representa um perigo, surge o medo. Mas e quando tudo tem causado medo e não conseguimos agir? Fugindo estávamos agindo? Creio que sim, pois fugíamos do medo.

Todo mundo teme algo - assaltos, aviões, seqüestros, doenças, dentistas, cirurgias, dores, solidão, entre outros. Claro que a intensidade do medo será intensificada pelo histórico de vida de cada um. Portanto, diante de nossos pavores, reais ou imaginários, só temos duas saídas: escondermos-nos em um canto com úlcera destrutiva e ansiedade exagerada, ou fazemos um esforço e enfrentarmos o perigo imediato.

Enfrentávamos nossos algozes fugindo? Acredito que sim, porquanto buscávamos a liberdade porque acreditávamos que todo ser nasce liberto, sem amarras, sem receio do desconhecido porque nada conhece, não possui ego.

Ou seja, diante de uma situação de perigo, só nos restam as alternativas: lutar ou fugir. Não podíamos lutar contra guardas armados e cães raivosos... por isso optamos pela fuga. Éramos fugitivos da lei e corríamos risco de morte.

Infestada de ofídios, escorpiões, sanguessugas, carrapatos... a lama fria do pântano não nos dava a certeza do sucesso que nossa pretensão ansiava. Não sabíamos qual sina era mais cruel.

Em princípio, lutar pode ser uma reação positiva. Isso não quer dizer que fugir seja uma reação negativa. Tudo depende da situação. É preciso reconhecer os próprios limites, por exemplo, sei que não reagir a um assalto é o melhor, pois reagir pode provocar conseqüências piores que nada fazer.

Eis uma grande verdade: Quando há uma situação de ameaça real a sua vida o medo que não é uma reação patológica, mas de proteção e autopreservação, se apossa de seu espírio sem pedir licença. Nessa ocasião você sente o arrepio que não é provocado pela intempérie, mas sim pelo medo.

O mesmo não acontece quando estamos sob o domínio do pânico e o medo passa a tomar conta de nossa consciência. Quando em pânico a pessoa nem foge nem enfrenta, mas fica paralisada e sem controle. É muito comum sentir-se assim durante uma situação de perigo, onde se sabe o que deve ser feito, porém se sente paralisada e não consegue agir.

A conquista da disciplina mental é o primeiro passo para a longa e sofrida caminhada para o encontro do eu gigante que todo ser humano possui.

Dos sete fugitivos, dois morreram pela hipotermia. O mais jovem não resistiu às inúmeras picadas dos escorpiões, quando se deitou em uma loca infestada dos aracnídeos. os outros três morreram pela inanição e gangrena úmida.

Por incrível que pareça o ancião de 87 anos, rosto escanifrado, olhar febril, faminto e bastante machucado alcançou o Portal da Glória. Foi o único a sobreviver porque venceu os seus medos.

Agora é hora de abrir a janela, respirar fundo e cumprimentar um novo e esplendoroso alvorecer. Eu obtive sucesso e venci os meus medos!
Wilson Muniz Pereira
Enviado por Wilson Muniz Pereira em 16/10/2007
Reeditado em 27/12/2007
Código do texto: T696434
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Wilson Muniz Pereira
Campina Grande - Paraíba - Brasil
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Wilson Muniz Pereira