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O Confissionário



Novamente vou escrever um pouco sobre meus tempos de criança, em Jaú, mais especificamente após a minha primeira comunhão, quando a programação dos domingos era muito bem definida: -assistir à missa das oito na matriz que era dedicada às crianças.
Na igreja era uma festa onde se podia encontrar todos os colegas de escola.Em razão disso, a cerimônia era desenvolvida num clima bem descontraído no qual a maioria dos celebrantes cedia ao espírito da gurizada, fazendo brincadeiras com os garotos.
A determinação do Papai e Mamãe era para confessar e comungar, senão a missa não valia.
Tenho bem claro na minha memória cada detalhe da Matriz. Ao seus significados pinturas a óleo das paredes e teto para onde ficava olhando e tentando entender seu significado e muitas vezes perdendo a atenção à missa. As confissões eram dadas em um confessionário grande de madeira entalhada, bem ao estilo da igreja. Nele formavam-se filas dos dois lados.Geralmente era o Padre Serra o incumbido de ouvir as confissões dos garotos.Talvez devido à idade avançada e fama de disciplinador, todos nós garotos morríamos de medo dele.
No domingo pela manhã, eu tinha um grave problema a resolver: quais pecados confessar.Muitas vezes não me lembrava de nenhum, afinal a semana é tão curta. Não é? Mas como eu poderia tomar lugar na fila da confissão e o tempo do Padre Serra e não confessar nada.Ele certamente iria me dar uma coça e me expulsar da igreja na frente de todos.Depois de muito pensar no assunto, ocorreu-me uma idéia genial.Fazer uma lista fixa incluindo aqueles pequenos deslizes que eram cometidos quase toda semana. Assim, elegi os seguintes delitos, que repetia mil vezes a caminho da missa:
-Desobedeci aos meus pais;
-Briguei com a minha irmã (afinal, nesta época os meus entreveres com a Sílvia eram uma constante);
-Falei nome feio (alguma coisa sempre escapa. Não é)?
-Menti (este certamente por coisas de segunda importância. Sem maldade).
Foi assim que por um longo período de tempo eu fiz as minhas confissões semanais sempre da mesma forma, arriscando-me sim a ouvir do Padre Serra um longo sermão, caso ele percebesse a técnica que eu empregava.
A seguir, na saída da missa e se tivesse uns trocados, comia um doce na frente da igreja, dia em que o vendedor fazia a sua melhor venda. As crianças se empoleiravam em cima do carrinho para escolher entre: cocada, geléias ou quebra-queixo, também conhecido como “martelinho”, cujos pedaços eram tirado pelo vendedor a golpes de um pequeno martelo.Tenho na memória a exata lembrança do vendedor de doces. Uma figura única, usando um grosso bigode afilado nas pontas no melhor estilo lisboeta, complementado por um jaleco branco e chapéu branco de abas largas. Ele era uma pessoa que gostava do assédio das crianças e era amigo de todos, conhecendo muitos de nós pelo nome.
A seguir, todos seguíamos em fila ao prédio da esquina para assistir aula de catecismo e posteriormente ao cinema do Padre Serra, com o detalhe que só teriam direito ao cinema os garotos que fossem antes ao catecismo.
Como não sentir saudades desta época da minha meninice que ficou marcada para sempre na minha memória, no meu coração, e que me dá tanta alegria recordar.


30/03/2005
luiz peixoto
Enviado por luiz peixoto em 10/11/2005
Código do texto: T69825
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Sobre o autor
luiz peixoto
São José dos Campos - São Paulo - Brasil, 63 anos
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luiz peixoto