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Karaokê

Ele era um cara estranho. E como todo cara estranho, ninguém entendia muito bem o que ele queria da vida. Fazia faculdade, natação e corria no parque. Até alguns amigos ele tinha. Ninguém muito próximo, mas alguns colegas de sala, que faziam trabalhos em grupo. Sempre negava os convites para as festas da faculdade, mas para os pais, dizia que era o cara mais popular da sala. Por isso vivia saindo, todas as noites.

Ela era uma japonesinha típica. Pequenina, tímida, discreta e de poucas palavras. Chegava até a ser estranha, de tão pouco que falava. Morava com os pais, os irmãos e os avós em uma casa que fazia fundos para uma loja de bugigangas, o ganha pão da família. Seu pai, muito rígido, não gostava que ela saísse a noite. Mas ela, sorrateiramente, conseguia escapar todas as noites, sem deixar vestígios.

Mesmo sem se conhecer, os dois tinham uma paixão em comum: a música. Mais do que isso, os dois sonhavam em ser cantores. E, estranhos que eram, frequentavam todos os karaokês da Liberdade. Um a cada noite. Mas ficavam ali, observando, aplaudindo e criando coragem para um dia, quem sabe, soltar a voz. Mas apesar dessa coincidência de gostos (e claro, devido à grande quantidade de karaokês na Liberdade), eles nunca haviam se encontrado.

Até que uma noite ambos entraram no mesmo karaokê. Ele inteiro de preto, com uma mochila nas costas e, como sempre, apreensivo. Ela de calça jeans e uma blusa larga, bolsa debaixo do braço e cara de assustada, por ter mais uma vez saído fugida de casa. Sentaram em mesas distantes, uma de cada lado do palco.

Ele nem reparou, mas ela não conseguia tirar os olhos daquele cara misterioso e sozinho, que cantava todas as músicas como se fosse o compositor de cada uma delas. Ela decidiu que precisaria chamar atenção do rapaz, mas não sabia como. Resolveu cantar, mas não tinha coragem de enfrentar os olhares do público e, principalmente, do rapaz misterioso. Chamou o garçom, pediu uma caipirinha. Com um pouco de bebida na cabeça, talvez criasse coragem. Pediu mais uma caipirinha. E mais outra.

Já no final da noite, escolheu a música, criou coragem e foi até o palco. Sem medo de nada, ofereceu a música ao rapaz de preto e começou a cantar. Até que começou bem, mas aos poucos foi esquecendo a letra, errando as notas e começando a gaguejar. As poucas pessoas que acompanhavam o espetaculo, começaram então, a vaiar. Quando ela já estava morrendo de vergonha, as vaias foram interrompidas pelo barulho de um tiro, que acertou em cheio a cabeça da moça.

Antes de ser levado ao camburão, ainda escutaram ele dizer: “Se o grande Tim Maia era obrigado a ouvir aqulio se revirando no túmulo, ela também era obrigada a ir até ele e pedir desculpas”.

Ricardo Polinesio
Enviado por Ricardo Polinesio em 18/10/2007
Código do texto: T700233

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Sobre o autor
Ricardo Polinesio
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
68 textos (5640 leituras)
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Ricardo Polinesio